Memórias ou simplesmente lembranças que importam

 

A estrada, talvez por um golpe de sorte, não tinha buracos. O carro deslizava com destino à Cambará. Seguíamos ao encontro das belezas do Cânion do Itaimbezinho dentro do Parque Nacional dos Aparados da Serra. O dia estava lindo. Uma beleza que as manhãs do inverno gaúcho nos presenteiam com freqüência. O frio pelo lado de fora do carro refletia no céu azul limpo, sem qualquer nuvem. Como diz aquela música conhecida de quase todos os gaúchos: Eu sou do Sul, sou do Sul | é só olhar pra ver que eu sou do Sul, sou do Sul | a minha terra tem o céu azul | é só olhar e ver. A paisagem do planalto pontuada pelas grandes propriedades rurais com sua pecuária extensiva desenhava a tela que nos colocava com o coração no Rio Grande do Sul.

Meu parceiro de viagem, com a mateira entre suas pernas, mantinha o hábito de tomar chimarrão todas as manhãs – hábito que eu já havia perdido depois de tantos anos fora do Rio Grande. Mas naquele dia acredito que ele mateava mais para auxiliar a digestão do café da manhã que tomamos ainda em Gramado. Exageramos na gula. Café, café com leite, chocolate quente, chás variados. Queijos, salames, morcilhas. Bolos de chocolate, laranja, cenoura, milho, coco. Aquele rocambole de mumu. Waffer , apfelstrudel e as cucas – as minhas preferidas. Os pães variados e aquelas chimias, as geléias caseiras, com certeza produzidas por alguma pequena indústria familiar da região mas com o aroma e o sabor da vovó. O que era aquela mesa.

Marcelo havia me convidado para passarmos com as esposas uns dias de férias na Serra Gaúcha. Fazia algum tempo que não nos encontrávamos. Depois que saímos do Rio Grande do Sul, ainda jovens, quase adultos, cada um para um canto, tínhamos perdido um pouco o contato. Crescemos juntos em Viamão, a primeira capital do Rio Grande do Sul – como costumamos apresentar a cidade cheios de orgulho. Uma cidade dormitório localizada na região metropolitana de Porto Alegre. Ele um sociólogo, militante de partidos de esquerda e de movimentos sociais. Foi presidente do Diretório Central dos Estudantes da nossa universidade, presidente da associação de moradores da nossa Vila (isso com 18 anos de idade) e coordenador de um movimento pela melhoria do transporte público na cidade. Desde quando nos conhecemos, ainda cursando o ginásio, tenho dele a lembrança de sua preocupação em defender os colegas vitimas de alguma injustiça, seja por parte de outros colegas ou mesmo dos professores. Ele não podia presenciar injustiças que se manifestava.

Eu, bem eu um jornalista com aquela formação típica para ver apenas o lado negativo das coisas.

Nos primeiros dias que ficamos em Gramado as conversas giraram em torno do que andávamos fazendo. Como quem dá um atualizar em uma página na internet falamos de tudo. Menos, é claro, de nossas angustias. Porque delas não precisamos lembrar, pois elas tem seus próprios mecanismos para fazer nunca esquecê-las.

Voltando à estrada. Acredito que o amargo e a paisagem lá fora tenham sido o gatilho para o Marcelo começar a falar sobre a vida. Ainda dentro do carro começou a verter lembranças. E seguiu assim por todos os dias da estada em Cambará do Sul.

Nossas esposas – como quem acompanha uma peça de teatro a partir da platéia, acompanhavam com muita atenção cada nova história. Com olhares de curiosidade e de surpresa – mas nunca de desaprovação, e com apartes que demonstravam prestar muita atenção no desenrolar dos enredos emprestavam apoio para Marcelo seguir falando.

Nos hospedamos em um hotel à beira do rio Camarinhas com suas águas límpidas correndo sobre as pedras formando pequenas corredeiras durante o seu percurso. A varanda, ao fundo dos chalés, com vista para uma casa amarela em uma fazenda nos campos de cima da serra e uma pequena floresta de araucárias nos brindava todas as noites com belas imagens da lua cheia.

Durante o café da manhã, o almoço, o jantar, o passeio nas trilhas do Cânion, o jogo de bilhar ou quando curtíamos o calor da lareira, Marcelo disparou a nos falar sobre suas memórias. E acredito que pela expressão de sua esposa a cada nova história tudo era novidade. Falava detalhes de suas experiências. Emprestava à narrativa uma certa espetacularização. É sabido que é impossível nos lembramos de tudo, que nossa memória com freqüência nos trai, que em alguns casos repetimos em nossos cérebros realidades construídas que repetidas viram nossas verdades. Contudo, a segurança como contava cada passagem concedia o sentido de verdade que garantia salvo conduto a toda história. E como boa parte delas eu havia acompanhado de alguma forma sempre buscava o meu testemunho como quem tenta validar as suas falas. Confesso que não me lembrava da maioria das coisas que ele contou. Não pelo menos da forma como ele as contava.

Naquela noite lá fora fazia um frio de renguear cusco. Um vinho da serra catarinense nos acompanhava. Sim, prestigiamos a produção dos nossos vizinhos catarinas. Estávamos nós quatro junto à lareira. Marcelo começou a contar um episódio que havia se passado quando ele tinha 13 anos de idade. Sim, há mais de 35 anos. Contou com tanta precisão que ficamos todos olhando fixamente para ele.

“Silvana era uma guria linda. Negra, magra – mas não seca, pernas compridas, olhos amendoados. Bochechas salientes e nariz largo destacando o redondo do seu rosto. Era uma das mais – se não a mais bonita das gurias da sétima série. Além de ser a mais rápida na corrida e a melhor arremessadora de pelota que o colégio Polivalente já havia levado para os jogos estudantis disputados na Escola Técnica Agrícola, a ETA. Aos domingos ela enchia de brilho a discoteca que funcionava no pátio coberto da escola, com suas colunas de caixas de som tocando R&B e todos os sons da década de 70. Michael Jackson com destaque, claro. Os recursos arrecadados com a cobrança das entradas auxiliava na manutenção da escola. Eu contava os dias da semana esperando o domingo chegar. Não para “sair” com Silvana, apenas para encontrá-la, para vê-la dançando na pista de lajota de barro que levantava uma poeira a cada passo. Ela dançava muito bem. Ensaiava durante a semana. Confesso que eu também dedicava algumas horas ensaiando ao som de alguma edição do LP Premier Mundial que tocava em meu três em um. Aos domingos era no Poli que ela emprestava sua graça. Mas aos sábados a festa era em um clube na Vila Santa Isabel onde a juventude negra daquela região da cidade se encontrava para dançar e reverenciar a música negra americana da época, começando – claro, por James Brown. Não era proibido não negros entrarem nesse clube. Mas em uma atitude de defesa e de valorização de sua cultura e de sua raça, uma mulher negra com um homem não negro não era muito bem visto. Senti isso muito de perto. E só fui uma vez lá. Mas o que aprendi de passos naquela noite já valeu.

Silvana morava em uma casa na avenida – na “faixa” como chamávamos a via principal da região por ser aquela a única via com asfalto. Sua casa ficava na curva da parada 3. A referência de endereços para nós eram os pontos onde os passageiros embarcavam e desembarcavam em suas viagens de ônibus entre a RS 040 e o final da linha, lá na Vila Augusta. Morávamos bem perto. Eu morava na parada 4. Todos os dias nos encontrávamos numa bifurcação perto do colégio e íamos juntos para as aulas.

Uma coisa que fazíamos nos dias quentes e em quase todas as semanas me marcou muito. As quintas-feiras, no primeiro período da tarde tínhamos aula de religião. Com grande freqüência matávamos essa aula, que não era obrigatória, para juntos com outros colegas irmos tomar banho de sanga em uma chácara nos fundos da escola. O dono não gostava muito de nos ver por lá. E direto nos botava a correr com disparo de espalha chumbo. O pecado naqueles dias era dobrado. Além de deixarmos de assistir às aulas de religião ficávamos horas dentro d’água tocando nossos corpos seminus naquele momento de nossas vidas em que os hormônios pululavam.

Mas o que mais ficou gravado em minha memória em relação a Silvana aconteceu em um aniversário dela. Eram os seus 13 anos. A festa foi na casa de uns parentes seus que moravam na faixa também, mas mais perto da minha casa. O globo de espelho girando no meio da sala. A estroboscópica piscando em um frenesi sem parar. A Pepsi-Cola nas garrafas de vidro sobre a mesa onde também descansavam pasteizinhos e outros salgados. Nas caixas de som tocava Heaven Must Be Missing An Angel do grupo Tavares embalando os passinhos ensaiados durante toda a semana. Foi quando aconteceu.

Olhei para a porta da casa e dei de cara com meu pai, parado, fazendo movimento com a mão característico de quem chama alguém. Gelei. Mas não hesitei em atender ao chamado. Quando cheguei ao alcance de suas mãos senti o calor de seus dedos pressionando o lóbulo da minha orelha me puxando por aquela escada de madeira abaixo. E foi desse jeito que descemos toda a rua que eu morava até entrar dentro de casa e meu pai me mandar para dentro do quarto. Fiquei por alguns segundos lá sozinho quando meu pai entra. Minha mãe, um pouco assustada, um passo atrás como quem se posiciona para me defender. Com brilho nos olhos, típico de quem estava com uma raiva contida, meu pai perguntou gritando o porquê eu havia saído se ele tinha sido claro que não era para eu sair, muito menos para eu ir naquele aniversário. Não sei de onde tirei forças para lhe responder. Mas olhando em seus olhos disse que havia combinado com minha namorada de ir ao seu aniversário e que não deixaria de ir por nada. E conclui que se ele quisesse me bater que me batesse. Foi quando entendi claramente o verdadeiro motivo de toda aquela reação desproporcional simplesmente por eu ter saído naquela noite sendo que saia quase todas as noites de sábado. Exaltado ele disse: “Aquela guria não é pra ti.” Foi nesse dia que comecei a entender como a discriminação contida se manifestava. Aquela guria não era pra mim por qual motivo. Ele não a conhecia. Apenas a tinha visto algumas vezes quando ela ia me assistir jogar futebol de salão no ginásio da parada 7. Entendi. Caiu a ficha. Ela não era pra mim simplesmente porque era negra. Meu pai, um filho de português, carregava dentro de si o racismo. Comecei a lembrar de outros momentos em que meu pai havia se comportado com preconceito. Em um jogo de futebol, assistindo a um programa de televisão, em situações do seu dia-a-dia. Hoje, à distância, sou capaz de entender que ele agia assim mais por ser vítima da construção cultural de uma sociedade racista do que por maldade. Mas naquele dia não pensei dessa forma mais racionalizada. Naquele momento minha raiva aumentou. E a vergonha também. No dia seguinte não fiz como fazia em todos os domingos. Não visitei Silvana.”

E Marcelo contou toda essa história em um fôlego só. Pela expressão de sua esposa, que é negra, percebi que ela nunca a havia escutado. Eu só despertei quando ele falou:

-Lembra Rafael, lembra desse dia?

Sem pensar em uma única palavra sequer que ele havia dito respondi de pronto que sim, que lembrava de tudo. E de alguma coisa me lembrava mesmo. A parte da festa me lembrava pois estava lá, dançando na sala no momento em que ele saiu. E do relato do confronto dele com o pai também por ele ter me contado dias depois. Mas na verdade não sei se tudo aconteceu realmente como ele relatou. Se tocava Tavares ou Eagle. Se o seu pai chegou até a porta ou mandou chamá-lo. Tampouco se ele desceu a rua das Margaridas puxado pela orelha. Mas a convicção da narrativa me fez acreditar que sim. Que cada detalhe ali relatado havia acontecido exatamente daquele jeitinho. E ali, tomando aquele vinho a beira da lareira decidi que toda a vez que alguém me contasse alguma passagem de sua vida, por mais fantástica que pudesse parecer a narrativa, a admitiria como verdadeira. Porque se não prejudica alguém, o que importa na história das pessoas não é como as passagens aconteceram de fato, mas sim como as pessoas viram os acontecimentos e como essas histórias constroem as suas histórias de vida. Porque se os exageros são necessários para que se mantenha a essência do que é lembrado que se exagere. Pois o importante é não perdermos a essência do que vivemos.

Terminamos o último vinho da viagem. Contudo, com a certeza de que novos encontros aconteceriam e que novas histórias seriam relembradas.

4 comentários Adicione o seu

  1. Cleusa Guimarães disse:

    Memórias na fazem recordar momentos únicos que de certa maneira ficam guardadas e um dia, bumbum. Numa conversa lá está ela sendo revivida. Gostei

    Curtido por 1 pessoa

  2. Thais Pena disse:

    Muito bom!! Começou muito bem

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  3. Ah!Lembranças..
    Pelo relato conheço o personagem principal desta narrativa,e esta lindo o texo ñ poderia ser diferente neh?? he he he

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  4. Neusa Marques disse:

    Adorei reelembrei, alguns anos.

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