A cura gay

Marcos é uma daquelas pessoas com inteligência acima da média. É capaz de ficar horas falando da realidade de países nos quais nunca colocou o pé. Memória fotográfica. De uma cultura absolutamente apurada. Nascido em um estado do Centro-Oeste brasileiro – que não me recordo qual –, mudou-se para Brasília ainda adolescente. Seu pai, militar, fora transferido para a capital federal. Aluno exemplar do curso de Ciências Políticas na Universidade de Brasília (UnB), era sempre bem-vindo aos grupos de trabalhos ou para apresentação de seminários.

Como o soldo de seu pai não era dos mais altos, sua mãe trabalhava cuidando da casa. Seus horários na UnB o impossibilitavam de trabalhar e, pelas circunstâncias, vivia com o dinheiro contado, em especial, para extravagâncias que, no seu caso, podiam ser um simples cinema. Tinha dificuldades para acompanhar a sua turma na programação cultural. Seus colegas de Ciências Políticas e de Relações Internacionais tinham, em sua maioria, um padrão de vida superior ao dele. Eram filhos de servidores públicos de alto escalão, de empresários de outros estados ou até de diplomatas estrangeiros.

Sua turma gostava de acompanhar as sessões de cinema na Aliança Francesa, escola de idiomas na Asa Norte de Brasília, que sempre apresentava circuitos com filmes interessantes – nada de blockbusters. Frequentemente, Marcos, ao chegar na fila para comprar o ingresso, batia nos quatro bolsos da calça buscando sua carteira. “Poxa, acho que perdi ou esqueci minha carteira em casa. Alguém pode pagar a minha hoje?” era o texto que ele costumava repetir. O colega mais próximo era o responsável automático pela compra do seu ingresso. E isso era meio que um acordo tácito entre todos.

A turma também gostava de frequentar o Beirute, um boteco árabe com um chope trincando de gelado e, disparado, com o melhor quibe recheado da cidade. Meio pé sujo, underground, o Beirute reunia em suas mesas a intelectualidade política e cultural do Distrito Federal. Ali, direita e esquerda sentavam lado a lado e travavam o bom debate das ideias. Ali o preconceito não tinha espaço. Marcos, por sua vida mais simples, por sua capacidade intelectual e por suas posições políticas – que não concordavam com a maioria dos seus colegas – sentia-se à vontade lá, onde também, às vezes, “esquecia” de levar a carteira. Os amigos nem estranhavam mais, em um misto de resignação e compreensão pela diferença da realidade financeira entre eles.

Certa vez, Marcos foi convidado por Isabela, sua melhor amiga, para passar uma semana no Rio de Janeiro. Foram ela, o namorado Carlos e Marcos. O casal havia alugado um apartamento de quarto e sala em Copacabana, no miolo do bairro, sem vista para a praia. Ao abrir a janela, o que se avistava eram a parede do prédio ao lado e as roupas penduradas nas áreas de serviço. No quarto, uma cama de casal com um colchão afundado em vários pontos, desenhando corpos que ali se hospedaram. Um guarda-roupas de madeira, antigo e, pela aparência, residência de praia de alguma família de cupins. Na sala, um sofá-cama, uma mesa de apoio com um abajur sem lâmpada, uma pequena mesa de jantar de dois lugares e uma pequena televisão de 20 polegadas. Entre esses dois cômodos, o banheiro e um corredor que se misturava com um recuo que fazia o papel de cozinha, com uma pia e um fogão de duas bocas. Nada de luxo, pelo contrário, mas ficariam todos bem-acomodados. Afinal de contas, eram dois estudantes e um funcionário da Câmara dos Deputados, que, apesar da imagem existente no país inteiro, não ganhava tão bem. Para o padrão dos três, o trem estava para lá de bom.

Chegaram ao Rio de Janeiro no final da tarde. De carro, vieram de Brasília pela BR 040. E 40 também era o número que marcava nos termômetros das ruas às 17 horas daquele dia. O calor era infernal, fazendo jus à música Rio 40 graus da Fernanda Abreu. Após se instalarem no apartamento, Marcos e Carlos saíram em busca de outro ventilador. Não havia ar-condicionado no apartamento, apenas um pequeno ventilador, daqueles Arno azuis pequenininhos. A compra do segundo ventilador foi uma demanda de Carlos, pois, como tinha uns quilinhos a mais, o calor o desesperava.

Depois de tomar um banho e sair do banheiro já suando, foram jantar no Bob’s ali perto do apartamento. Como não conheciam a cidade, decidiram retornar ao apartamento e deixar para explorar a cidade no dia seguinte. O calor persistia. E ficaria assim a noite toda. Lá pelas tantas, quando o papo já havia se esgotado, o casal foi para o quarto dormir e Marcos preparou a sua cama na sala. Um ventilador em cada cômodo. A diferença era a janela que podia ficar aberta na sala. Apesar de não fazer muita diferença, pois não havia nem brisa na rua para adentrar por ela, mas psicologicamente poderia funcionar.

Depois de algum tempo tentando dormir, Marcos foi para a sala. O calor excessivo dentro do quarto em que o ventilador apenas fazia o ar quente circular não o deixou dormir. A esperança era que lá o calor fosse menor. A diferença não era tanta. Carlos também se mantinha acordado.

“Sofrendo com o calor Marcos”, perguntou Carlos.

“Também. Está muito quente mesmo. Mas não é só isso que me tira o sono, e estou assim há muito tempo”, respondeu Marcos com a voz engasgada carregada de preocupações.

Percebendo a tensão na fala do amigo, Carlos quis saber o que acontecia. Como não eram tão próximos, apesar da convivência por conta da sua amizade de quase irmão com Isabela, ele relutou. Mas, ainda assim, perguntou o que acontecia e, como quem está no limite suportável, Marcos começa a falar.

“Eu nunca falei sobre isso com ninguém, pois não tenho com quem conversar, com quem me abrir. Nem com a Isa (como carinhosamente chamava Isabela), pois não sei se ela me compreenderia. Meus colegas de faculdade, com certeza, se afastariam de mim. Não tenho irmãos. Nesses casos que a gente vê como é ruim ser filho único. Mas em você eu confio. Você tem mais vivência e acho que pode me ajudar, me dar alguma luz.”

Carlos começou a ficar preocupado com o que ouviria. Se era um assunto que nunca havia sido tratado com outras pessoas, devia ser algo muito grave. Uma doença grave, talvez. A responsabilidade de falar da vida de outra pessoa o assustava, mas foi todo ouvidos, pois sabia que era disso que o amigo precisava, alguém que o escutasse.

“Você sabe que meu pai é militar. E como militar tem uma cabeça muito dura, muito fechada. Tenho enorme receio de como ele agiria. Minha mãe sei que me apoiaria. Sofreria um pouco, mas me apoiaria. Mas meu pai, sei não. Penso que, para ele, seria um desgosto muito grande. Seria como a morte.”

Nesse momento, Carlos, não suportando mais a curiosidade, pediu a Marcos que fosse mais objetivo, que fosse direto ao ponto e falasse o que de tão grave, de tão assustador, o estava angustiando. O amigo entendeu e foi direto ao ponto.

“Sou gay. Mulheres não me atraem. Até já tive namoradas, mas mulheres não me interessam. Me sinto atraído por homens. E, recentemente, tive a minha primeira experiência em um relacionamento homossexual. Foi com um colega da UnB do curso de História. Somos da mesma turma de Teoria das Relações Internacionais do professor Iorito, com quem faço como matéria livre. Não foi fácil. Nós já trocávamos olhares há algum tempo, mas nunca tínhamos tomado a iniciativa. E, naquele dia, a oportunidade da preparação de um seminário em dupla nos colocou a sós na casa dele. Estava com medo. Minha primeira impressão é que seria algo vulgar. Mas não. Foi algo envolvido em uma atmosfera de carinho e respeito, de amor mesmo. Me senti tão bem, vivendo minha orientação sexual na plenitude e longe dos medos e dos receios que habitavam minha cabeça e meu coração. Como me descobri homossexual não sei dizer. Mas como me encontrei, como me realizei como tal tenho certeza de que foi nesse dia.”

O brilho nos olhos do Marcos enquanto falava de sua experiência tocou Carlos. Até ele, que tinha uma postura natural sobre a homossexualidade – e, como um militante de esquerda, sobre qualquer outro tabu da sociedade moderna –, percebeu o quanto era difícil, o quanto era sofrido para um ser humano assumir a sua homossexualidade. Marcos seguiu relatando passagens em que reprimiu seus sentimentos por conta das pressões externas que a sociedade preconceituosa exercia sobre ele. Carlos tinha noção do mal que essas pressões culturais fazem sobre as pessoas a partir de livros e de relatos ouvidos em seminários e pela imprensa, e escutar diretamente de uma pessoa, ainda mais uma pessoa próxima a si, tornava a experiência muito mais forte e dolorosa.

Quando Marcos concluiu dizendo que o que mais lhe preocupava era o seu pai, Carlos o estimulou a enfrentar a realidade e falar com ele. Que seria mais honesto e melhor para não haver mais preconceito ainda envolvido na história caso ele mesmo contasse a seus pais. Que a tendência era sim que ele não aceitasse. Mas o que ele faria? Ele o mandaria sair de casa? Não iria querer mais vê-lo? Carlos não acreditava que o pai de Marcos, por mais duro que pudesse ser, fosse capaz de tais atitudes. Mesmo compreendendo que quem melhor conhecia o pai era o amigo, sugeriu que ele enfrentasse a situação de cabeça erguida, com altivez, pois não deveria se envergonhar nem um pouco da sua orientação sexual.

Depois da conversa, e já no alto da madrugada, foram dormir. Carlos voltou para o quarto forno. No dia seguinte, falou com a namorada sobre a conversa com Marcos. Ela disse que suspeitava, mas como ele não havia falado com ela, nunca tocou no assunto. Durante a semana, os três aproveitaram o calor e os prazeres do Rio. Passearam por Ipanema, Copacabana e Recreio. Cristo, Urca, Sapucaí. Sempre fugindo do sol. Nas caminhadas pela cidade, buscavam refúgio no ar-condicionado das bancas de revista. Não tocaram mais no assunto. Marcos estava mais leve, aliviado de suas dúvidas. Era nítido. Só viria a falar novamente quando se despediram na volta a Brasília.

“Carlos, muito obrigado pela nossa conversa. Acredito que era o que me faltava para criar coragem. E decidi. Vou falar com meus pais.”

Tempos depois, enquanto aguardavam Isabela tomando um chope e comendo um quibe no Beirute, Marcos contou a Carlos como havia sido a conversa com seus pais. Disse que sua mãe chorou, chorou muito. Não disse uma palavra – nem de apoio, nem de contrariedade. O seu pai, diferente do que ele imaginava, não explodiu em violência, mas também com lágrimas nos olhos como nunca havia visto no rosto daquele militar durão. Preocupado, é claro, de como os seus colegas olhariam para ele quando soubessem que seu filho era “veado” como ele mesmo falou.

“Meu pai, com os olhos cheios de lágrimas, me falou que podíamos procurar ajuda, ajuda de profissionais. Talvez uma terapia pudesse tirar essa confusão da minha cabeça. Como quem encarava a minha orientação sexual como uma doença, indicou um tratamento que poderia levar a cura. A minha vontade na hora foi de gritar, de falar para ele que não eu não estava doente. Que estava bem. Que apenas me sentia feliz me relacionando com homens. Que sentia mais carinho por homens, mas que isso não fazia de mim uma pessoa doente. Mas respeitei o momento dele. Sabia que também estava sendo muito difícil para ele. Que, assim como eu, sofria por não poder viver minha sexualidade em público, ele também sofreria quando isso acontecesse. Sei que a preocupação dele era com o que os outros falariam. Concordei com a terapia. Minha mãe falou que tinha uma amiga psicóloga que poderíamos consultar. Meu pai disse que não, que não poderia ser ninguém que nos conhecesse. Tínhamos que procurar alguém com quem não teríamos mais contato depois. Concordei também. A reação dele mostrou um carinho comigo que nunca havia demonstrado. Ele merecia que eu desse essa oportunidade a ele.”

Nesse instante do relato, já estavam com as lágrimas nos olhos. A troca de chope pelos garçons nem era mais percebida pelos dois. O quibe sobre a mesa esfriou. E como o Beirute era reconhecidamente um bar frequentado por gays, os garçons, ao perceberem a conversa, em uma atitude de extremo profissionalismo, não os perturbaram, nem mesmo para oferecer outro chope. Apenas trocavam quando esvaziava o copo paulistinha e marcavam na comanda. Deviam pensar que eram namorados tendo uma “DR”. A curiosidade sobre o desfecho tomou conta de Carlos, que perguntou se eles tinham ido à psicóloga.

“Fomos a uma única consulta. Chegando ao consultório, meu pai não me deixou falar. Foi logo dizendo que eu estava confuso, que estava pensando coisas que esse pessoal da universidade, essa intelectualidade besta coloca na cabeça dos jovens. Enfim, que eu estava achando que era ‘veado’ – sempre nas palavras dele. A psicóloga olhou para mim e perguntou como eu me sentia em relação a outros homens e mulheres. Após eu concluir o meu relato, ela disse de pronto que sim, eu era homossexual. Nesse instante, meu pai a interrompeu e perguntou: E isso tem cura, doutora? A psicóloga, mantendo o seu ar professoral e neutro, perguntou ao meu pai se ele já havia ouvido falar em Sigmund Freud. Ao ver o sim de meu pai com a cabeça, buscou um livro sobre a sua mesa e respondeu para meu pai olhando diretamente nos seus olhos como se eu não estivesse no consultório: ‘Certa vez, uma mãe enviou uma carta a Freud fazendo mais ou menos essa mesma pergunta: se ele conseguiria curar o seu filho que ‘sofria de homossexualidade’. É claro que eu não conseguiria dar ao senhor uma resposta tão brilhante e conclusiva como ele. Então vou ler para o senhor o que disse Freud naquela oportunidade ­– e já lhe adianto que concordo plenamente com a opinião dele.

Minha querida senhora,

Lendo a sua carta, deduzo que seu filho é homossexual. Chamou fortemente a minha atenção o fato de a senhora não mencionar este termo na informação que acerca dele me enviou. Poderia lhe perguntar por que razão? Não tenho dúvidas de que a homossexualidade não representa uma vantagem. No entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma.

Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da Antiguidade e Atualidade foram homossexuais e, dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história como Platão, Michelangelo, Leonardo da Vinci etc. É uma grande injustiça, e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito. Caso não acredite na minha palavra, sugiro-lhe a leitura dos livros de Havelock Ellis.

Ao me perguntar se eu posso lhe oferecer a minha ajuda, imagino que isso seja uma tentativa de indagar acerca da minha posição em relação à abolição da homossexualidade, visando substituí-la por uma heterossexualidade normal. A minha resposta é que, em termos gerais, nada parecido podemos prometer. Em certos casos, conseguimos desenvolver rudimentos das tendências heterossexuais presentes em todo homossexual, embora, na maioria dos casos, não seja possível. A questão fundamenta-se principalmente na qualidade e na idade do sujeito, sem possibilidade de determinar o resultado do tratamento.

A análise pode fazer outra coisa pelo seu filho. Se ele estiver experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos e inibição em relação à sua vida social, a análise poderá lhe proporcionar tranquilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição.

Sigmund Freud

Portanto, o que posso lhe sugerir como tratamento é que o senhor trate com naturalidade a situação, dispa-se de seus preconceitos, não dê ouvidos para o que os outros possam falar e nem mesmo se preocupar com o que eles possam pensar, pois são fruto de uma sociedade preconceituosa e homofóbica, e não merecem que percamos minutos de nossos sonos. Viva a vida de vocês com o máximo de felicidade e valorize o ser humano forte que é seu filho por estar disposto a enfrentar todos os inimigos que estão lá fora. Viva seus momentos e sejam felizes.’

Essa foi a consulta. Saímos de lá e fomos, meu pai e eu, tomar um café no Martinica. E lá ele me fez uma declaração de amor que nunca pensei que pudesse ouvir de alguém. Disse que me amava muito e que nada seria capaz de diminuir esse amor. Que talvez a preocupação que tinha de como as pessoas em nossa volta se comportariam ao saber de minha orientação sexual era o que mais lhe preocupava. Porque ele sabia como agiam preconceituosos – ele fez questão de se incluir nessas situações. As pessoas são más. Claro, disse ele ainda, que também estava preocupado de começar a ser chamado no quartel de ‘o pai do veado’. Mas que isso, com toda a sinceridade, era menor agora perto do que eu passaria. Que a partir de hoje começaria a se policiar mais sobre suas atitudes em relação aos homossexuais e a outros preconceitos bestas que carrega dentro de si, pois hoje é capaz de saber o quanto isso machuca em quem sofre a discriminação. Que ele tinha descoberto naquela consulta de que quem precisava de ‘cura’ era ele mesmo. Curar os seus preconceitos. E que faria por onde para alcançar essa ‘cura’. Que buscaria tratar com naturalidade a situação. Ele me fez apenas um pedido: que eu esperasse alguns dias até apresentá-lo ao meu namorado.”

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