Malditas poças 

Definimos pela viagem uns 15 dias antes. Um trabalho a ser realizado por mim e por minha esposa exigia que ficássemos fora de casa por alguns dias. A primeira alternativa era irmos de avião. Pesquisamos passagens durante uma semana e os preços se mantinham proibitivos. E as perspectivas financeiras não nos permitem extravagâncias. Nunca entendi muito bem esse negócio de preços de passagens praticados pelas companhias aéreas brasileiras. Tá, tem temporada, fora de temporada, é um leilão, tem horários em que pessoas jurídicas compram mais do que físicas etc. etc. etc., mas o preço que eles cobram é um absurdo, sejamos sinceros. Também nunca engoli esse discurso de que aqui se paga mais impostos do que lá fora. Penso que, na verdade, aqui os empresários praticam margens de lucro exorbitantes, buscando tirar os investimentos em um menor tempo possível.

Decidimos seguir de carro. Uma viagem cansativa, cerca de sete horas de estrada segundo o Waze. Levamos o carro para a revisão – na verdade, para checar umas luzes que estavam acendendo no painel. Foi constatado que não era nada grave. Apenas uma desconfiguração no computador do carro, muito provavelmente causado por uso de combustível de baixa qualidade.

Às vésperas da viagem, surgiram passagens mais acessíveis em outro aeroporto. Apesar de ser distante, os preços compensavam. Mas ainda precisaríamos de um carro para nos deslocarmos na cidade. Alugar um carro mais as passagens, no entanto, ficaria mais caro. Surgiu a possibilidade de eu ir de carro e minha esposa e nosso filho de avião. Eu os pegaria no aeroporto do destino. Mas como eles iriam até o aeroporto para embarcar? Problemas cá, problemas lá, noves fora, optamos por seguir de carro mesmo.

No dia anterior, voltei sugerindo a alternativa do avião. Algo me dizia que essa era a melhor alternativa. Iriam de táxi para o aeroporto. Assim, os dois sofreriam menos o desgaste da viagem. Além de estarem em maior segurança. Nossas estradas, sempre repleta de imbecis irresponsáveis ao volante, são máquinas de matar. Como já dirigi por milhares de quilômetros, já vi de tudo. E esse tudo me avisava: mande-os de avião. Fui voto vencido. Seguiríamos de carro.

Era o último dia daquele setembro. A chuva caía com insistência sobre o Vale do Itajaí. Não era forte, mas já persistia por algumas horas. O relógio do carro marcava 4:14 da madrugada. Na garagem, minha esposa em um profundo e longo debate com nosso filho – de apenas dois anos – sobre a necessidade de ele se sentar em sua cadeirinha. Isso depois de ele, em uma negociação, ter ficado por um tempo em meu colo junto ao volante. Estava guiando, nas palavras dele. Aliás bem que tentei com que, em vez de guiar, ele usasse a palavra dirigir, mais acostumada aos meus ouvidos. Mas perdi essa parada. E a explicação é clara: o primeiro contato dele com uma direção de carro (volante pra ele) foi com um amigo de São Paulo, isso com alguns meses de vida – daí o guiar.

Eu estava ajustando as malas no porta-malas, o que, por ser uma viagem de pouco tempo, não deixou de provocar o estresse da falta de espaço no porta-malas. Ou do excesso de malas levadas por minha esposa. Na verdade, nunca sei se os porta-malas são pequenos ou se ela leva malas demais.

O destino desta vez será a capital de São Paulo. Waze confirma as sete horas de viagem. Saímos cedo na tentativa de que nosso filho estivesse dormindo pelo menos nas primeiras três horas de estrada. Ledo engano. Apesar do horário, acordou como de costume. Humor lá em cima. Cantando suas músicas preferidas: Parabéns pra você, Brilha brilha estrelinha, Um indiozinho… dez indiozinhos. E foi com essa trilha sonora que começamos nossa viagem. Sempre que ele está entre nós, a sua alegria nos faz esquecer qualquer problema, qualquer crise que estejamos vivendo. Sua aura deixa nossas vidas leves.

Os cuidados com o carro foram todos tomados no dia anterior. Abasteci, calibrei os pneus. Minha esposa foi até uma loja checar a instalação da cadeirinha. Eu não havia, depois de mais de dois anos, conseguido ajustá-la corretamente. Só fui perceber meus erros quando a olhei instalada na noite anterior. Efetivamente estava mais firme. E, por fim, o kit vômito. Duas toalhas de banho e sacos plásticos. Nosso menino costuma não segurar o enjoo nas viagens de carro. E não importa a distância.

Então saímos da garagem em direção à chuva. Um “tchau” para o seu Sandro, porteiro do prédio, um gremista de carteirinha. Desejei sorte para o jogo de domingo contra o Fluminense. Os pingos lá fora eram grossos. O barulho no teto nos coloca dentro de uma panela de pipocas. Acessar a BR 101 levou apenas alguns minutos. Como sempre faço quando estou com meu filho no carro, velocidade reduzida. Com a chuva, mais reduzida ainda. Os faróis contrários atrapalhavam um pouco mais a visibilidade. Todos do outro lado da rodovia pareciam andar com faróis altos. Isso faz com que os cuidados sejam redobrados. Chequei o dispositivo que regula a suspensão do carro para andar em pistas molhadas. Muitos caminhões já começavam o seu dia de trabalho. Um caminhão carregando dois outros, novinhos em folha. Um cegonha, daqueles caminhões que transportam veículos, vindo do sul carregado. Será que a economia está respondendo?

Já no início, logo que adentramos a BR, começamos a enfrentar o problema com o excesso de água acumulada no lado esquerdo da pista de dentro – entre o muro central e a parte inicial da pista, passando a faixa branca e os olhos de gato. A frequência com que o carro dava uma trancada ou desestabilizava naquela pista recomendou que seguisse para a da direita. Ali havia menos água acumulada. Como estava com a velocidade reduzida, não vi problema em seguir pela direita. Em Balneário Camboriú, a água se espalhava pela pista. Piorou em Itajaí e Penha.

Seguíamos a viagem. Apesar de demonstrar tranquilidade para minha esposa, estava tenso ao volante. Não nervoso. Mas não emitia uma palavra, seguia absolutamente concentrado no que via à frente. Nosso filho cantava e perguntava pelo Papai Noel e pelo Coelhinho da Páscoa. Não entendia de onde ele havia tirado a fixação por esses personagens. Perguntava hora sim, hora também, se eles já haviam chegado ou “cadê o Coelhinho da Páscoa?”, ou “cadê o Papai Noel?”. Talvez algum desenho animado tenha tratado, absolutamente fora de temporada, dessas datas comerciais. Mas tinha virado uma obsessão para ele.

Na minha cabeça, ainda estava muito presente um acidente que sofri tempos atrás na Rodovia Régis Bittencourt, na divisa entre o Paraná e São Paulo. Além de destruir a frente do carro ao bater no guarda-corpo, o que não sai da minha cabeça é minha imagem como passageiro – apesar de estar só no carro –, em câmera lenta, ora lateral ou de frente. Pensava: será que esse guarda-corpo vai segurar o carro ou cairei penhasco abaixo. Felizmente segurou. Naquele dia, assim como hoje, também chovia.

O silêncio se fez. Meu filho e minha esposa dormiram no banco de trás. Ele na cadeirinha com a cabeça caída para o lado, e ela com a cabeça apoiada na cadeira. Pelo retrovisor parecia que um se apoiava na cabeça do outro. É a imagem mais presente que guardo dos dois. O ajuste feito no dia anterior pelo pessoal da loja de cadeirinhas parece ter funcionado, pois, mesmo com o peso da cabeça da minha esposa, a cadeirinha não saiu do lugar. Minha atenção agora estava toda à disposição da estrada e sua chuva.

Alguns motoristas não respeitam a recomendação de reduzir a velocidade e passam por mim como se nada de diferente estivesse acontecendo lá fora. Os sedans, em sua maioria, são os mais agressivos. Os caminhões, mais profissionais, seguiam na toada correta, apesar – penso eu – de sentir menos a influência da água sob suas rodas. A quantidade de carros na estrada aumentava à medida que o dia avançava.

Já tinha transcorrido um pouco mais, um pouco menos de uma hora de viagem quando aconteceu. Minha esposa e meu filho seguiam dormindo. Acabara de passar pela Praça de Pedágio, em Araquari. A cancela trava e o meu sistema de pagamento libera a passagem para uma van dos Correios. Tive que dar marcha à ré e passar novamente pelo sensor para liberar nossa passagem.

Imaginei que eu flutuava sobre uma nuvem. O volante não respondia aos meus comandos. O freio ABS tampouco mudou o comportamento do carro. Um pisão, dois pisões e nada. A vida rodava como se estivéssemos em uma xícara de parque de diversões ou em um chapéu mexicano. Rodava, rodava. Minha esposa gritava no banco de trás: cuidado, cuidado. Já era tarde. Ainda tive tempo de pensar “por que não insisti na minha ideia de eles viajarem de avião”. Puta que pariu, por que não segui meus instintos. O carro foi sequestrado, sem pedido de resgate, por uma poça. Aquaplanou, rodou ao encontro da quina de uma ponte. airbags acionados.

É até aí que me lembro da viagem. Os últimos centímetros em direção àquele guarda-corpos de concreto. Bem em sua quina. Hoje, sei que não vi, durante aquele percurso, o nascer do sol na serra apás Joinville; as barragens secas antes e depois de Curitiba; dois acidentes no estado de São Paulo; assim como também não pude comer em um posto na beira da estrada meu último sanduíche de mortadela com uma cocada assada de sobremesa.

Post scriptum: as perícias realizadas pela Polícia Civil e pela seguradora confirmaram que tudo aconteceu como relatei aqui. Isso me faz pensar daqui, da altura de onde estou – sozinho felizmente, pois minha esposa e meu filho não me acompanharam nessa etapa da viagem de minha vida – por que ninguém responsabiliza as empresas concessionárias das estradas por esses erros grosseiros de engenharia que permitem o surgimento de poças ao longo de todas as rodovias brasileiras. Um amigo meu costuma dizer que aqui deve ser o único lugar onde se sinalizam buracos na pista ou curva perigosa em vez de tapá-los ou planejar melhor a estrada. Inclusive sem aquelas curvas perigosas ou aquelas outras em que a inclinação nos joga para fora da pista.

Mas voltando às poças. Quantos acidentes, quantas perdas materiais, quantos gastos para os sistemas públicos de saúde no atendimento às vítimas de acidentes, quantas vidas foram embora por conta dessas malditas poças? Penso que um dia vai aparecer alguém do Ministério Público para responsabilizar as concessionárias. Exigir um Termo de Adequação de Conduta para que as empresas arrumem de vez esses problemas de drenagem e nossas estradas fiquem um pouco mais seguras.

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