Maura

Da varanda da casa dos meus padrinhos, onde costumava passar os verões, podia ver a ponta de seus pés sendo levados pelo movimento da rede. Era perto das 18 horas, e poucas pessoas passavam por aquela rua de pedras irregulares onde brinquei por todas as férias de minha infância e adolescência. Os pinheiros em que a rede estava presa seguiam um balançar que, naquele dia, o vento não era capaz de produzir. Não era a primeira vez que a via. Naquela manhã, eu a havia visto na beira da praia, construindo um castelo de areia com sua prima mais nova. No meio da tarde, ao chegar da beira da praia pelo beco de servidão que fica ao lado da nossa casa, pude vê-la jogando taco com os meninos na calçada em frente à sua casa. Com pernas esguias e tronco alongado, parecia uma atleta fundista. Certeira na pontaria, fizera os meninos cansarem com seus arremessos distantes. Sua velocidade permitia que sua dupla marcasse muitos pontos em cada tacada. O jeito moleque marcava a fotografia.

Jogar taco era uma das atividades preferidas por todos nós naquelas tardes de verão em Cidreira. Pela manhã, o banho de mar, as brincadeiras na areia, o frescobol, o futebol. À tarde, o taco sempre esteve no topo das preferências. Nos dias de chuva, jogos de tabuleiro ou baralho dentro de casa. Os pinheiros da família elliottii, que cercavam a sede da companhia de águas do estado, era a proteção necessária para os raios solares. Naquela calçada, onde repousavam as acículas – folhas pontudas, muito finas, semelhantes à agulhas, verdes brilhantes ou marrons –, às vezes, mais de uma partida acontecia ao mesmo tempo. Brincadeira que dividia as atenções com os skates, as bicicletas e os jogos da verdade com a garrafa girando acusatoriamente sobre a mesa no quiosque já dentro do terreno da empresa. Isso antes de algum inimigo da liberdade decidir por cercar com telas aquele belo espaço de convívio comunitário.

A turma era grande. Muitos passavam, iam e vinham em suas temporadas de uma semana ou quinze dias de aluguel nas casas de veraneio. Mas tínhamos a turma mais permanente. Aqueles que passavam mais tempo por lá. Éramos meu primo, filho dos meus padrinhos, o dono da casa, e eu. Jorge e sua irmã. Ele alto e forte; ela também bastante alta para a nossa idade. Eram os dois únicos negros da nossa turma. Aliás não me recordo de ter tido contato com muitos negros durante minhas férias. As duas irmãs que veraneavam em uma casa na sequência do beco da servidão. Isso depois de terem passado uma temporada na casa em frente à nossa que acreditávamos ser assombrada. Moravam na minha cidade, mas só nos víamos na praia. Do nosso lado, os filhos do dentista. Os dois mais jovens, mais da turma da minha irmã, alguns anos mais nova do que eu. E ela, que agora repousava sobre a rede, e seus dois irmãos. Vinham todos os anos do Rio de Janeiro para passar as férias com seus avós. Nunca entendi muito bem isso. Sair do Rio para passar férias de verão no Rio Grande do Sul. Para mim, o Rio de Janeiro sempre foi sinônimo de praias maravilhosas. Mas agradecia pela escolha deles.

Só conseguia ver a ponta dos seus dedos dos pés e a parte de um livro que lia com a vontade de um chocólatra comendo uma barra de meio amargo. A mudança de páginas era rápida. O conteúdo absorvido com a facilidade dos iniciados. O que estaria ela lendo com tamanha avidez? Seria algum romance? Estaria ela lendo Umberto Eco que acabara de lançar O nome da rosa? Obra que havia lido, mas de forma superficial. A curiosidade começou a me corroer. Tentava me lembrar de passagens para, em uma possível conversa, trocar impressões. Mas a memória me faltava. Ultimamente estava lendo livros mais sobre sociologia, filosofia e política. Não estava na melhor das formas para esse debate. Mas não perderia por nada se a oportunidade surgisse. Pelo contrário. A construiria.

Levantei da minha rede e fui à garagem pegar a bicicleta do meu primo. Para não dar muita bandeira, sai pela esquerda e comecei a contornar o terreno da companhia de águas. Atravessei a rua, segui pela calçada, passei a caixa-d’água, virei à direita. O coração parecia querer sair pela boca. Não, não estava correndo, meu preparo físico era ótimo à época. A ansiedade juvenil era a responsável pela mudança no comportamento cardíaco. Andei mais um pouco e tornei a virar à direita, passei pela sede da empresa – onde ficavam a administração e o laboratório de tratamento e análise da água – e segui pela rua até o final da quadra. Estiquei o percurso fazendo a volta na quadra para passar em frente à sua casa em um retorno à minha. Uma casa antes voltei a andar pela calçada para poder ser percebido. Fiz um pouco de barulho. Deu certo. Ela tirou os olhos das páginas e olhou para a rua. Quase caí. Não esperava que um simples olhar pudesse provocar um embaraço tão grande.

Com uma simpatia a qual eu não estava muito acostumado, ela me cumprimentou. Retribui meio trêmulo, mas tentando não demonstrar o nervosismo, o frio na barriga que tornava difícil encontrar as palavras certas. Mesmo que fosse um simples “oi, tudo bem? “. Aproveitei as forças que a pergunta me deu e coloquei o pé direito sobre o muro baixinho em frente à casa de seus avós e dei sequência à conversa. A primeira pergunta logo após um “tudo bem” com aquele sotaque carioca gostoso de se ouvir foi, óbvio, “o que tu estás lendo? “. Torcendo para que fosse Umberto Eco. Não era.

Maura estava lendo Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Opção de leitura interessante para uma menina de 13, 14 anos. E um ambiente mais favorável para mim, pois já havia lido por mais de uma vez. Começamos a falar sobre o livro. Eu falando um pouco mais sobre o autor. Ela mostrando conhecimento sobre a obra e sobre Marcelo. Palavras bem colocadas. Firmeza na argumentação. Clareza na exposição. Logo, a conversa seguiu para literatura, ficcional e não ficcional. Livros em geral. Senti um certo temor em expor fragilidades por leituras superficiais de algumas obras. Resolvi forçar para ficar em uma zona de conforto. Além do livro que ela devorava em sua rede, falamos mais sobre o que eu estava lendo naquele momento.

A sede com que ela queria saber sobre os temas me fascinou. Era uma curiosidade de quem tem sede de conhecimento. E mais, de quem tem facilidade para assimilar as informações. Não uma assimilação simples. Uma capacidade analítica e verdadeiramente apaixonante para questionar. Logo, me apaixonei.

A conversa avançou. Perdi o jantar. Na casa dos meus padrinhos, era servido impreterivelmente às 19 horas. Inaceitável alguém neste horário não estar à mesa. Naquele dia, eu me esqueci dessa regra. Talvez a primeira vez em mais de 10 anos. Nesse meio tempo, seus irmãos passaram em direção ao quiosque da companhia de águas. Seu avô, um simpático senhor, sentado em sua cadeira de balanço na varanda, nos mirava sem censura. Sua prima mais nova, uma menina gordinha, linda e com um leve problema em uma das pernas que a fazia caminhar mancando um pouco, brincava junto à Maura.

Não sei bem que horas eram quando sua tia veio avisar que estava na hora de Maura entrar. Trocamos olhares demonstrando a tristeza recíproca. Ela respondeu que já iria. Antes, ela me fez um pedido. Queria emprestado o livro que falei que estava lendo. Ela gostaria de lê-lo. Ponderei que talvez não fosse uma leitura muito agradável, ainda mais para as férias. Na verdade, pensei que uma menina da idade dela não ia achar graça alguma em ler o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels. Mas ela insistiu. Pedi para ela esperar um pouco ali na rede que o buscaria. Sai correndo em direção à minha casa. Atravessei a rua em um pé só, entrei correndo pelo jardim desviando dos sapos que pululavam pelo gramado, tropecei no capacho na porta da frente e quase caí junto à mesa em que meu tio jogava baralho com amigos. Segui pelo corredor em uma velocidade que quase bati na minha prima que saía do banho. Entrei no quarto e peguei o livro no guarda-roupas. Saí na mesma intensidade que entrei.

Entreguei o livro em suas mãos. Trocamos um “boa noite”. Voltei para casa.

Deitei na rede e lá fiquei um bom tempo na esperança de que ela voltasse para a rua. Não aconteceu. Fui dormir com o brilho no olhar típico dos apaixonados. Mas era algo diferente do que já havia sentido. Apesar da sua beleza, não era isso o que me atraía. Apesar do fato de ela ser uma carioca, a única menina de fora – o que, à época, era um motivador da conquista, não era o que fazia meu coração bater mais acelerado. A imagem que eu tinha dela era de uma menina construindo um castelo de areia na beira da praia com a sua prima. Nada de sex appeal.

Acordei cedo no outro dia. Coloquei os anões de cimento no jardim. A cada caminhada da garagem ao gramado, não tirava o olhar da casa de Maura, na expectativa de que a visse. Tomei café da manhã, que, assim como o jantar, também tinha horário determinado e respeitado por todos. Ou por quase todos. Meu primo nunca tomava café conosco, pois sempre acordava muito mais tarde. Mas também a mesa não o aguardava. Tomava um achocolatado ainda na cama e voltava a dormir.

Deitei na rede e, com um livro nas mãos, que não me recordo muito bem qual era, fixei o olhar para o outro lado da rua. Vi as primeiras movimentações. Mas nada de Maura. Sua tia saía de casa para uma caminhada. Como o acesso para a praia mais fácil era pelo beco servidão ao lado da nossa casa, era nessa direção que ela vinha. A vontade foi perguntar por Maura. Mas não tinha intimidade para isso. Amizade que construiria posteriormente. Mas, para a minha felicidade e surpresa, assim que ela passou ao lado da nossa casa e me viu na rede – claro que fiz questão de que ela me visse –, ela me falou com a simplicidade dos virtuosos: “a Maura já acordou. Daqui a pouco vamos à praia. Por que não vem conosco? “. Quase caí da rede. Respondi que “claro”, iria sim. Torci para que não tivesse nenhuma atividade por fazer naquela manhã.

Em menos de uma hora, estávamos a caminho da praia onde ficamos por muito tempo construindo castelinhos de areia para a prima de Maura. Construção embalada pelas impressões de Maura acerca dos conceitos de burguesia, proletariado, tomada de consciência. Ela havia lido o Manifesto naquela mesma noite, era como se já tivesse tido todo o tipo de contato com aquela obra. Não acredito muito que isso pudesse ter acontecido. Como seu pai era militar, não imagino que seja uma literatura que entrasse em sua casa naqueles primeiros anos de abertura.

E foi nesse sobe e desce de paredes robustas de nossos castelos que começou uma bela, inocente e duradoura paixão. Pelo menos da minha parte.

1 comentário Adicione o seu

  1. Como é bomn recordar gury!! As Lembranças ficam para sempre tatuadas no nosso Eu!!

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