Conversão

Naquele dia, Rafael rompeu sua rotina. Sempre após o dia de trabalho no comércio – que tinha seu ponto de partida em um copo de café preto no Bar do João, no coração do Bomfim –, chegava à escola e ia direto à lancheria comer um pão com ovo acompanhado de um copo de leite. Aos 14 ou 15 anos, a fome era grande, mas o dinheiro curto. Logo, se o lanche não era suficiente para lhe dar sustância até 23h45, quando as aulas terminavam, ou até chegar à casa, lá pela uma hora da madrugada, comprava o que era possível com o dinheiro.

Era um início de noite típico dos meses de março, desde que o horário de verão fora instituído no país. O sol deitava por detrás da Usina do Gasômetro, descansava sobre as águas do estuário do Guaíba. A distensão, que traria a normalidade democrática de volta às nossas vidas, dava seus primeiros passos. Passos lentos é verdade, mas alguns movimentos começavam a acontecer na sociedade.

Rafael cursava edificações na Escola Técnica Parobé. Uma escola pública estadual referência em cursos técnicos – isso no momento em que o país vivia uma verdadeira confusão em como tratar o ensino de segundo grau. Fora levado a esta escolha, talvez, por influência de um tio, que também estudara esse curso em outra escola. Aquele era seu segundo ano na escola – não o segundo ano do curso. Apesar de sempre ter sido um aluno com ótimas notas, havia sido reprovado no ano anterior. Sentira o peso de trabalhar e estudar tendo apenas 4 ou 5 horas de sono por noite. Isso somado aos campeonatos de futebol de salão dos quais participava, com jogos durante a semana, o que lhe tirava de algumas aulas.

“Nossa luta é por melhores condições para estudar. Quem é do curso de mecânica sabe que as máquinas lá estão quebradas. Nossa luta é, sim, pela valorização dos nossos professores que têm seus salários atrasados. Mas nossa luta também é por liberdade.”

Esse discurso vinha do meio de uma pequena multidão de estudantes que se concentrava no saguão do prédio principal da escola. Rafael, ao entrar pelo portão principal, na entrada pela Avenida Washington Luiz, parou e começou a ouvir do que falava aquele estudante em que a voz passava através de um megafone. Não conseguia avistar o dono da voz, mas percebia a firmeza dos convictos que tinha ao dizer aquelas palavras. Como a curiosidade aumentava, depois de ficar um tempo parado atrás de todos, buscou espaço entre os colegas e subiu em um banco de concreto, atrás de muita gente, mas de frente para o orador. E ali ficou vivendo aquele momento impensável daqueles dias de dúvida sobre o futuro.

“Quem é esse aí?” – perguntou Rafael a um colega desconhecido que se juntara a ele sobre o banco.

“É o presidente do Grêmio dos estudantes. É do curso de eletrotécnica”.

“E ele não tem medo de ficar falando essas coisas …”

Rafael não teve tempo de ouvir a resposta do colega. Sentiu seus órgãos internos tremerem como o tremor da terra após o movimento de placas tectônicas. Tudo dentro de si parecia ter saído do lugar. O coração, como parece ser o caminho natural, estava-lhe à boca. O estômago revirado apertava-lhe os pulmões. O fígado esgrimia-se com o pâncreas na busca por algum lugar naquele inferno. O intestino afrouxara-se. Os olhos forçaram a cabeça a virar-se para trás. Foi quando avistou um capacete branco que balançava sobre a cabeça de um soldado, que buscava atingir o seu colega com o mesmo cassetete que havia causado a erupção em seu corpo.

A Brigada Militar invadira a escola para dar um fim àquela “manifestação de comunistas”, como diria a Folha da Manhã e a Folha da Tarde do dia seguinte. Foi utilizada uma violência desproporcional ao que ali acontecia. A correria levou Rafael a fugir pelo portão lateral da escola e esconder-se do outro lado da avenida, junto ao prédio de uma representação do Ministério da Educação. De lá, pôde ver o movimento dos cassetetes de madeira brilhosos sendo levados ao céu e arreados sobre costas, peitos, braços e cabeças de seus colegas.

Apavorado com o que via e com as costas ardendo em brasas, recostou-se e, sentado na grama, seguia assistindo àquela cena de barbárie nunca antes imaginada por ele. Pensava: se ele que estava ali e nem sabia sobre o que tratava aquele encontro de estudantes havia tomado aquela bordoada, imagina o que aconteceria com os organizadores, em especial, com o presidente do Grêmio, que fora jogado dentro do camburão Veraneio da Brigada.

Seguindo sua fuga, Rafael subiu em direção ao Centro. Passou pela Praça da Matriz, onde cruzou com viaturas da Brigada que faziam a ronda do Palácio Piratini, e foi até o terminal de ônibus atrás da sede dos Correios, junto à Praça da Alfândega. A empresa que fazia sua linha, que ironicamente se chamava Veraneio, reforçava a imagem do colega sendo jogado dentro do camburão.

Até Viamão, a viagem costumava demorar entre 1h15 e 1h30. Tempo suficiente para passar um filme pela cabeça de Rafael. Seus pensamentos só tinham foco para as cenas de violência dos brigadianos contra os estudantes. Ele nunca foi muito dado às coisas de lutas, mas era nítida a covardia com que se deu àquela peleia. De um lado, homens fortemente armados representando o Estado. De outro, estudantes que, de afiado, só tinham suas línguas.

Até então, aquele negócio de ditadura nunca tinha chamado muito sua atenção. Seu mundo girava em torno do trabalho com colchões, da escola, das festas de final de semana e do seu prazer com o futebol. Apesar de ter sido orador de sua turma de formatura no ginásio e de ter feito um discurso crítico, a política não constava de seu cardápio de preferências. Por isso, não conseguia entender qual ameaça uma simples reunião de estudantes poderia representar ao establishment. Pôs-se a pensar. Caiu no sono. Perdeu o ponto de descida saltando do ônibus na parada 7 – três paradas após a sua.

No outro dia, a caminho do trabalho, como de costume de carona com seu tio, em seu Chevette vermelho 78, comentou o ocorrido. Não havia conseguido falar com ninguém ainda. Seu pai havia saído mais cedo para o trabalho, e sua mãe ficara envolta arrumando sua irmã para a escola. O silêncio como resposta do tio o ajudou a compreender que o ocorrido era mais sério do que podia imaginar. O mesmo aconteceu durante o dia no trabalho. Entre seus colegas, nenhuma resposta, nenhum comentário para o além do clássico “Ah! Eu vi”. Nem mesmo o italiano motorista da Kombi – seu parceiro cotidiano na tarefa das entregas –, que falava mais do que o homem da cobra e tinha opinião sobre tudo, emitiu algum comentário.

As entregas naquele dia terminaram cedo. De volta à loja, pediu para seu gerente – que era o mesmo tio da carona – permissão para sair mais cedo, pois tinha um trabalho da escola para concluir. Foi liberado e, antes das 18h, estava em passos largos pelo Parque da Redenção, por onde cortava caminho em direção à escola. Queria chegar logo para saber notícias. Seu desejo era que tudo estivesse bem com seus colegas, a maioria desconhecidos, apenas tendo como identidade, até então, serem alunos da mesma escola.

Como nunca tinha feito antes, foi direto para a sede do Grêmio Estudantil. Uma sala acanhada no prédio dos fundos da escola, junto às oficinas. Ao entrar, já pôde perceber que as notícias não seriam boas. Dois estudantes sobre um pufe jogado ao chão. Outro sentado em uma cadeira quebrada com os pés para cima de uma mesa. Pelas costas, avistou ainda um outro sentado no chão olhando para o vazio. Reconheceu, pelo cabelo que lhe passava os ombros, ser o mesmo que falava ao megafone no dia anterior. Silêncio sepulcral. Nenhuma palavra saía daquelas bocas que, menos de 24 horas antes, eram plenos pulmões.

Rafael entrou também sem falar nada. Sentou-se sobre uma mesa encostada em uma parede que guardava, pendurado, um megafone. Momento em que foi tomado por um misto de tristeza e raiva ao ver o rosto do colega, presidente do Grêmio. Um dos olhos fechados pelo roxo que irrompia e nivelava a região que ia da maçã do rosto à testa. O nariz com um gesso denunciava a fratura. O brilho dos olhos cheios d’água mirando ao longe, contudo, estes mostravam a certeza de que tudo valera a pena. Lá estava, naquela pequena sala, um exército de Brancaleone a meditar em seu silêncio nada fúnebre, planejando os próximos passos. Poderia ser o movimento de um passo atrás, mas na busca de dois passos adiante.

Naquele momento, com aquela tela de sofrimento, revolta e altivez à sua frente, Rafael se convertera. A partir dali, adotara para si todos os “ismos” que combinassem com o humanismo e todo e qualquer combate às injustiças, sejam de que matrizes fossem. Não uma conversão que o livraria dos pecados, passados e futuros, mas que lhe mostraria um caminho a seguir.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s