A viagem

Lá fora o mar avança como nunca dantes. O vento entra pelas janelas com bastante intensidade, fazendo balançar os lustres da sala. O sol brilha a pino. O que resta de areia na beira da praia está tomada por moradores e turistas. O colorido dos guarda-sóis empresta vida à orla, diferente daqueles dias fora de temporada, mas que também tem o seu charme. Mais ao fundo, o barco de passeio turístico – um navio de pirata meio sem graça, balança ao sabor das ondas. O casal briga com as marolas para ficar em cima de suas pranchas de SUP.

Aqui dentro, sigo a minha rotina. Mesmo em dias como os de hoje. Assisto a minhas séries preferidas e participo de partidas de jogos on-line em meu celular. Agora, estou deitado de bruços no tapete da sala assistindo a uma das melhores séries a que já assisti. Os fones de ouvido me trazem um som perfeito. A tela do celular é pequena, mas a qualidade da imagem é ótima, apesar do campo restrito. Meu pai não se cansa de falar para eu mudar de tela, ir à televisão ou, pelo menos, a um computador. Mas a fixação pelo celular sempre vence.

— Filho sai desse celular, diz pela enésima vez meu pai ao passar pela sala.

— Já está terminando aqui, pai, respondo burocraticamente com uma virada de rosto de frações de segundo e volto minhas atenções para minha pequena grande tela. Ao retornar os olhos para o celular, percebo que não aparece mais a minha série. A tela mostra um canal do Youtube que nunca tinha acessado. Na verdade, nunca tinha ouvido falar. Nome esquisito, com umas letras esquisitas e um som mais esquisito ainda. Parecia uma trilha sonora feita com chiado daquelas TVs antigas quando ficavam fora do ar. Na primeira tela, apenas um vídeo postado.

Logo imaginei: vírus. Deve ser um desses locais que roubam nossos dados, informações que nem mesmo nós sabemos sobre nós mesmos. Deixo para lá. Meu pai passa novamente e lembra que assistir pelo celular na distância em que estou pode causar problemas de visão. Olho para ele, escuto, mas não ouço. Quando retorno à tela, não seguro minha curiosidade e toco com o dedo para rodar o vídeo. É aí que acontece.

Um imenso raio de luz lilás sai da tela do celular e invade a sala. De tão forte, cega-me. Sinto o meu corpo se comprimir como um pedaço de carne sendo embalado a vácuo. Da viagem não lembro de nada, só me recordo a partir do momento que lá cheguei. A cidade era muito louca. Avenidas amplas sem semáforos, sem faixas de segurança, lixeiras de vidro nas ruas. Fui recebido – ou seria melhor dizer recepcionado – por uns caras muito estranhos, a começar por seus nomes: Black, Yellow, Red, White e Rainbow.

As pernas e o pescoço compridos como os de uma girafa. O corpo como se fosse uma saúva só que maior e em pé. Os olhos parecendo três bolas 8 de sinuca. Sim, eles tinham três olhos. As antenas… bem, eles não tinham antenas. Os braços longos como os nossos, apenas um pouco maiores, assegurando o equilíbrio estético àquelas obras surrealistas. E seus pés eram proporcionais ao tamanho dos seus corpos, o que lhes garantia a estabilidade necessária para permanecerem em pé, apesar da altura de quase 3 metros.

Uma coisa ainda mais interessante com essas figuras era a voz. Sinais binários eletrônicos eram emitidos a partir do lado esquerdo de seus peitos. Deles, eu não entendia nada. Ninguém entenderia nada daquilo. Contudo, talvez, ao perceberem a minha cara de “não tô entendendo nada”, surge, na altura de suas barrigas, um holograma em forma de tela de cristal, dessas que aparecem, às vezes, em telejornais. E, nessa tela, surgem textos em português, que acredito ser a tecla SAP com a qual eles falavam.

“Seja bem-vindo, Tiago”, vai aparecendo letra por letra na tela junto a Black. Obviamente, não é preciso explicar o porquê do seu nome, assim como dos outros. Não sei como ele sabia o meu nome. Mas o fato é que sabia.

“Onde estou?”, perguntei ainda meio assustado, acreditando estar em Marte ou em qualquer outro planeta para onde, esses americanos sem ter o que fazer, enviam sondas para atrapalhar a vida dos caras.

“Como assim onde você está…?”, projetou Red através da sua voz em texto. “Você está no planeta Terra”.

Não podia ser verdade. Eu efetivamente não estava na Terra. Aqueles caras não eram humanos. Eu estava sonhando. Tinha 14 anos e não bebia, logo não estava embriagado. Não consumia drogas, portanto não estava viajando. Devia ser um engano ou eu estava em outra terra, a terra deles.

“Como assim na Terra. As pessoas aqui são diferentes. Vocês são diferentes”, disse para eles já em estado completo de desespero.

“Calma, Tiago. Somos humanos sim. Você pode estar nos achando um pouco diferentes, mas somos tão humanos quanto você. Somos iguais em nossa composição, em nossa essência”, sentenciou Yellow, com o mesmo tom professoral da minha professora de Filosofia.

“Está bem. Estamos na Terra, tudo bem. Então, me digam onde mais precisamente estamos? E que dia, mês e ano é hoje? ”

“Mais precisamente??? … Estamos na Terra. Não consigo processar a sua pergunta. A Terra é a Terra”, disse Black. Eu já conseguia interpretar um pouco os seus sons e pude perceber o som da dúvida. O que foi confirmado pelos sinais gráficos na tela.

“Quero dizer em que país, em que cidade estamos?”

“Ah! Você está falando de países. Aquelas divisões territoriais que servem para dividir as pessoas. Isso não existe mais. Provou-se desnecessária e nociva. É uma etapa superada”, afirmou White.

“Então, tá. Deixa eu perguntar algumas coisas para vocês. Black, qual a sua profissão? ”

“Médico.”

“E, White, qual a sua?”

“Sou pintor. Pintor de paredes, de casas.”

“Hum. Red, quantos de vocês existem na ‘Terra’? ”

“Milhões.”

“Pois, então, na minha Terra, em especial no meu país, a quantidade de vocês tinha diminuído bastante, quase deixando de existir, restavam apenas alguns milhares e, mesmo assim, seguindo com seu flagelo.”

“Ah! Mas aqui fomos e somos respeitados e crescemos cada vez mais em quantidade e com respeito à nossa cultura”, respondeu Red com a naturalidade de um menino que sobe em um pé de Jussara para pegar um cacho de açaí.

“Hummm. Interessante. E, Yellow, você faz o quê?”

“Eu dou aula na universidade nacional. Leciono para o doutorado a disciplina de relações sociais e respeito ao outro.” É, um amarelo dando aula na universidade nada de muito estranho, mas aula de relações sociais e respeito ao outro, convenhamos que soa meio como coisa de outro mundo.

“Hummmm. Interessante. E, por falar nisso, Rainbow, o que você faz?”, perguntei já querendo provocá-los.

“Eu sou diretor de uma grande companhia na área da construção civil pesada. Sou engenheiro.”

“Hummmm. Muito interessante mesmo. Você, Rainbow, é engenheiro, trabalha com obras pesadas e, com certeza, deve ser muito respeitado por todos com os quais você se relaciona no seu trabalho”, falei de supetão já caindo no deboche.

“Sim. Agora, quem não entendeu fui eu”, escreveu a voz de Rainbow.

“Deixa para lá”, respondi para encerrar por ali, pois percebi que eles não iam entender mesmo.

Aquelas respostas me intrigaram ainda mais. Fiquei pensativo por algum tempo. Olhei para os novos amigos ali à minha frente. Olhei para os lados. Vários outros seres como aqueles caminhando pelas calçadas. Carros que flutuavam pelas vias sem buracos e paravam para os pedestres atravessarem as ruas. Um menino comendo algum doce e colocando o papel da embalagem em seu bolso. Todos se cumprimentando ao passarem um pelo outro. Um jovem ajudando um idoso a subir a escada de sua casa. Um homem saindo de uma floricultura com um buquê de tulipas. Um igual a Black de mãos dadas com uma mulher igual a White. Dois iguais a Rainbow, também de mãos dadas. E, tudo isso, sem ninguém olhar atravessado ou fazer comentários. Uma mulher, parecida com Yellow, caminha com seu cachorro pela calçada, faz um pit stop para o bichinho fazer cocô e, quando este termina, retira do bolso um saco plástico para recolher as fezes e colocá-las em uma cesta de lixo. Ao ver tudo isso, não me segurei e falei aos meus 5 novos amigos:

— Vocês me desculpem, mas isso aqui não é a Terra mesmo. Não a Terra que eu conheço.

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