A eleição

O seu nome é meio estranho, por isso, nem vou pronunciá-lo. Fazê-lo demandaria explicar a origem, o porquê de ser assim e não de outro jeito, se é no singular ou no plural, se é no masculino ou no feminino, se é nome ou sobrenome e tantas outras explicações que tomariam o seu e o meu tempo. E o que não acrescentaria em nada na história que passo a contar. Por isso, o chamaremos simplesmente de Rafael.

Estamos na segunda metade da década de 1980, logo após o fim do período de ditadura militar no Brasil. Os movimentos sociais estão no início de sua reorganização após o longo período da clandestinidade de suas lideranças e o sufocamento de suas manifestações. Entre esses movimentos, o dos estudantes – em especial o dos universitários – exerce um protagonismo no processo de abertura e consolidação da democracia.

Rafael, um jovem de classe média baixa que morava em Viamão, uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre com aproximadamente 150 mil habitantes, é aprovado no vestibular para Ciências Sociais na maior universidade particular da América Latina. Antes, por dois anos, já tinha estudado outros cursos. Com a facilidade de trabalhar no período da tarde em um banco, cursara a faculdade de Matemática na universidade federal pela manhã e, à noite, Ciências Contábeis em uma faculdade particular. Como mudou de Contábeis e Matemática para Sociologia, se isso se fizer necessário, conto mais para a frente.

Ao mesmo tempo que fora aprovado no vestibular, Rafael passou em um concurso público para um banco federal. Passou a trabalhar à noite no setor de compensação, o que lhe deixava o dia livre para estudar. E foi isso que fez. Como tinha o crédito educativo, um tipo de financiamento que o governo dava aos estudantes para começarem a pagar depois de formados, teve sua tarefa facilitada. Sem a mensalidade pesando em seu bolso de forma imediata, passou a cursar 40 créditos por semana, ocupando suas manhãs e tardes até para compensar os dois anos que havia ficado em outras faculdades.

Mas aquela universidade era um mundo bastante diferente de tudo o que Rafael já havia vivido. Vários cursos concentrados em um mesmo espaço. Grande parte dos estudantes de uma classe social que não a sua. Figurinos elaborados. Carrões no estacionamento por onde ele só passava a caminho da parada de ônibus. Comportamentos estranhos de gente esquisita. Tudo o assustou no início, mas não demorou muito para encontrar a sua turma.

O momento era de efervescência para o movimento dos estudantes. Já no primeiro semestre de sua presença na universidade, aconteceriam as eleições para os centros acadêmicos e para o diretório central dos estudantes, o DCE.

Lá na São Judas, fui presidente do CA, que reunia os estudantes de Contábeis e Administração – disse, despropositadamente, Rafael a um colega veterano do curso de História com quem viria a fazer dupla em peripécias pela livraria do campus.

E por que você não vem com a gente fazer parte da chapa do centro acadêmico? – disse o colega, talvez acreditando que essa experiência recente ajudaria na organização dos estudantes de Ciências Sociais, Filosofia, Geografia e História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

— Não, tu estás louco. Não tenho tempo nem de me coçar. Tô com aula todo o dia… – declinou Rafael, que não participava de nenhuma corrente que agrupava por referências teóricas e políticas os militantes do movimento estudantil. Apesar de ter participação no movimento estudantil, sua militância maior se dava junto ao movimento popular em sua cidade. E, mesmo sendo próximo ao partido político de boa parte dessas correntes, não havia se filiado a qualquer uma delas, costumando dizer que não foi por falta de oportunidade. Lembra sempre que quando estava no centro acadêmico de Ciências Contábeis recebeu, em meio a uma manifestação que paralisou as aulas naquela faculdade, a visita do dirigente de uma das correntes trotskistas (como até hoje, eram várias à época) convidando-o a participar de reuniões. Mas não levou a sério o convite e o “capa preta” discípulo de Leon também não retomou o contato. Talvez tenha percebido que Rafael estava mais para um socialista rosa do que para um defensor da revolução permanente. Olhando com o distanciamento que permite o momento em que conto essa história, acredito que ele tenha acertado em sua avaliação.

Mas Rafael começou a acompanhar as reuniões preparatórias para a eleição do centro acadêmico. E, talvez, por essas participações, que talvez tenha sido convidado para as discussões mais amplas de montagem da chapa para o Diretório Central dos Estudantes. Foram várias reuniões até que chegou àquela que definiria a composição da chapa. Rafael como cristão-novo naquela história é claro não estava incluído em qualquer lista. E aqui estou falando da chapa à esquerda. Pois a chapa à direita já devia estar formada desde sempre com as bênçãos do reitor e a articulação do pró-reitor de assuntos comunitários – um cargo criado para vigiar os estudantes.

Os debates giravam entre os seguidores das ideias de Leon Trótski – que, se não falhar a memória, eram representados por duas correntes; os puros marxistas – como se autodenominavam, talvez por acreditarem que bebiam direto da fonte; os leninistas; os gramiscianos (também chamados por seus adversários à época de reformistas, sociais democratas, a direita da esquerda); os papa-hóstias, vinculados à igreja católica e suas Comunidades Eclesiais de Base; e os independentes, ou seja, aqueles incompetentes que não serviam para estar em nenhuma das correntes. E, entre esses, estava Rafael.

Companheiros e companheiras, nossa chapa deve defender a redução das mensalidades já – defendeu a representante de uma das correntes trotskistas.

Para reforçar o que disse o companheiro que me antecedeu, nossa chapa deve defender a redução das mensalidades já – interveio, ato contínuo, um outro representante da mesma corrente.

Rafael estava ali acompanhando aquela reunião sem entender muita coisa, em especial, algumas frases que lhe pareciam ensaiadas o bastante para saírem naturais da boca dos oradores. Uma coisa o intrigava: por que era necessário alguém se inscrever em uma reunião para falar exatamente o que outra pessoa já havia falado. Mas seguia ali com a postura dos principiantes em busca de aprendizado e fazendo intervenções pontuais e quando acreditava ter algo de novo e relevante a falar. Pelo menos era o que ele achava.

O restaurante universitário deve ser de graça, pois já pagamos as mensalidades – defendeu tão efusivo como um bebê recém-nascido o representante de uma corrente chamada por todos pela alcunha de macarrão.

Quero reafirmar o que o companheiro acabou de dizer… – seguiu outra representante da macarrão, repetindo o que o seu companheiro acabara de falar. E aqui companheiro não se trata de tratamento de membros de organização. Eram namorados.

E assim seguiram várias e várias reuniões que sempre terminavam no Bar do Beto. Como Rafael trabalhava à noite, nunca acompanhava os demais na extensão da reunião, momentos nos quais a elaboração política devia ser mais profícua. Durante todo o debate que antecedeu a montagem da chapa, Rafael intervia de forma cirúrgica. Ele se protegia da superexposição, de suas qualidades, mas, acima de tudo, de suas fraquezas. A timidez e a insegurança em relação a suas posições talvez fossem os motivos. Também ninguém lhe dava muito crédito, pois, afinal de contas, era um quase outsider naquele ambiente.

No entanto, a eleição se aproximava e era necessário chegar a um acordo sobre a composição da chapa e de suas propostas. E, para isso, uma reunião foi marcada para um sábado, pela manhã, na sede do próprio DCE. Tinham o apoio da gestão que se encerrava. Era mais ou menos 9 horas da manhã quando Rafael desceu do seu ônibus, em uma das avenidas que margeiam o campus da universidade, e se dirigiu à reunião, passando, no caminho, por Marcelino, um busto de bronze em homenagem ao padre que dava o nome à escola anexa à universidade. Ele atravessou todo o campus e, ao chegar próximo à sede do DCE, percebeu alguém na janela, que ele identificou como uma colega da história a falar e apontar o dedo para fora em sua direção, chamando a atenção de outras pessoas na sala. Ficou sem entender o que acontecia. Pensou: fiz merda.

Naquele dia, a reunião se concentrava em montar a nominata da chapa, pois a inscrição deveria ser feita até a próxima segunda-feira. Todos os cargos foram acertados sem muitas divergências. A discussão empacou na definição de quem ocuparia a vaga de presidente.

Como somos a maioria na base, temos o direito de indicar o presidente – defendeu o representante da corrente ligada à igreja. Um estudante de Filosofia, gordinho e de fala tranquila, que, contudo, não explicou como comprovaria a sua afirmação, pois nenhuma pesquisa ou dado objetivo comprovava essa realidade.

Não. Somos nós que temos a base mais militante, mais combativa … – contra-argumentou o representante dos trotskistas, uma estudante do Direito, de fala articulada e que também tinha sempre em seu namorado, que não era estudante daquela universidade, o apoio para reforçar suas teses.

E assim seguia a reunião com cada um apresentando os argumentos mais válidos possíveis para indicar um representante da sua corrente sem aparente possibilidade de consenso. A reunião, que começara cedo, já entrava pela tarde sem resolver o impasse. Foi quando aquela colega que estava à janela quando Rafael se aproximava, ligada a uma das correntes trotskistas, pediu a palavra.

Nós – possivelmente falando em nome da sua corrente, defendemos o nome do companheiro Rafael para encabeçar a nossa chapa.

A surpresa de Rafael foi enorme. Só não maior do que a da garota ao perceber que a proposta era referendada por todos os representantes das correntes ali presentes. E foi assim que Rafael virou presidente do Diretório Central dos Estudantes por uma gestão e secretário-geral em outra. Até ser expulso. Mas isso é outra conversa.

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