Vou ali falar com Deus

O ano não me recordo muito bem, mas acredito que tenha sido na segunda metade da década de 1980. Foi nessa época que conheci Poletto. Uma figura fantástica, de bom coração, aberta ao mundo. De origem humilde, havia deixado a família, todos pequenos agricultores, em Vila Seca, distrito da cidade de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha. Partira para Viamão anos antes para estudar Teologia no Seminário Maior. Depois de formado, foi cursar Filosofia na Pontifícia Universidade Católica em Porto Alegre, onde nos conhecemos. Porém, desde muito tempo, Poletto já se relacionava com as coisas de Deus. Ainda adolescente, descobriu-se vocacionado para isso. Juntou-se à Fraternidade dos Capuchinhos em sua cidade natal.

— Rafael, estou precisando me encontrar com Deus – disse Poletto durante mais uma das refeições que fazíamos juntos no bandejão da universidade. Talvez por não ser afeito a temas religiosos, não entendi muito bem o que ele queria dizer com isso. Afinal de contas, a figura desde os 13 anos vivia dentro de uma igreja, já era quase um padre, rezava todos os dias e como assim “precisava se encontrar com Deus”. Ao ouvir aquela frase, a primeira coisa que pensei é que se ele que era ele precisava, imaginava eu, estava perdido mesmo.

— Um encontro real, não esses que acontecem durante minhas orações – respondeu Poletto à pergunta que não lhe foi feita, pelo menos em voz alta. Seguiu dizendo que precisava encontrá-lo nos diferentes lugares por onde Ele, espírito santo, se encontrava, e não apenas entre as paredes de Sua casa, abrigado pelo Seu telhado. Iria percorrer os caminhos da vida para falar com Deus mais próximo da vida real das pessoas, longe da abstração que até então vivera.

E, assim, iniciou sua jornada. De tempos em tempos, nós nos encontrávamos quando ele me atualizava os relatos que passarei a compartilhar. Durante esses encontros, comecei a entender o que ele queria dizer quando falou que precisava se encontrar com Deus.

A primeira escolha de Poletto, para testar a viabilidade da sua empreitada, foi ter com Ele em uma vila próxima ao Seminário onde continuava a morar. Domingo à noite, aproveitou e foi à missa da Igreja da comunidade, dormindo logo em seguida na casa paroquial.

Segunda pela manhã, saiu bem cedo da casa. Chovia e fazia muito frio. Talvez um minuano batendo e aquela garoa fina. Definitivamente, era um daqueles dias de renguear cusco. Muito cedo, Poletto foi à parada de ônibus. Ela estava lotada. Como não havia cobertura, os guarda-chuvas estavam todos abertos, provocando gotejamentos nos ombros dos vizinhos enquanto protegiam a cabeça de seus donos.

— Que demora para esse ônibus chegar. – disse Poletto a uma Senhora negra, com alguns quilos acima do peso, como quem não estava muito acostumado a enfrentar o transporte coletivo em uma hora de pico.

— Isso não é nada rapaz. E quando chega aqui nessa parada, já está lotado. Então, temos que esperar o próximo. E assim vai. Temos que dar graças a Deus quando conseguimos um lugar. – respondeu a Senhora resignada com a espera.

E Poletto seguiu ali por um bom tempo. Realmente, dois ônibus passaram lotados. Um parou, mas não conseguiu abrir a porta dada a quantidade de passageiros que já se amontoavam lá dentro. Outro nem parou. Passou direto como se ali não fosse uma parada e como se não tivesse passageiros a sua espera. Começou a conversar com as pessoas tentando conhecê-las. Um jovem com idade perto de 14 anos estava a caminho da procura por um emprego. Havia recortado alguns anúncios do jornal de domingo que conseguira com um vizinho e ia tentar, mais uma vez, começar a trabalhar.

— E tu não estudas? — perguntou Poletto admirado com a pouca idade do guri.

— Terminei o primeiro grau. Agora, vou estudar à noite. Preciso trabalhar para ajudar com as despesas de casa. É apenas minha mãe para cuidar de mim e dos meus outros dois irmãos. – respondeu o guri com uma naturalidade que deixara Poletto pensativo por alguns momentos sobre como seria o futuro desse guri tendo que trabalhar e estudar. Com certeza, pensou, ele teria menos condições de disputar as vagas mais qualificadas no mercado de trabalho com aqueles que “por mais sorte” não precisassem trabalhar enquanto estudam.

De uma mulher, que pelo tamanho da barriga deveria estar com 8 meses ou mais de gravidez, Poletto ouviu que estava a caminho de uma consulta que ela não havia conseguido na unidade de saúde perto da sua casa e, por isso, estava indo à capital para tentar ser atendida. Sim, tentar, pois não era garantida a consulta. Poderia chegar e não ter mais fichas para o atendimento, como inclusive já acontecera. Mais surpreso ainda ficou Poletto ao saber que a mulher fazia isso todos os meses, sem a certeza de que conseguiria se encontrar com algum médico. Aqui, a preocupação maior de Poletto recaiu sobre a criança. Como nasceria, como se desenvolveria sem um pré-natal bem-feito. Teria ela as mesmas condições de sobreviver do que aquela que contou com o acompanhamento médico sistemático durante toda a gravidez?

Finalmente um ônibus parou. A chuva e o vento persistiam. Para entrar, os guarda-chuvas e as sombrinhas precisavam, obviamente, ser fechados, o que era garantia de roupas e cabelos molhados. Para entrarem, os passageiros que chegavam antes à porta contavam com o empurrão dos que estavam atrás para entrar. E assim, um empurrando o outro, iam se juntando às sardinhas que dentro já se espremiam. Pelo menos, a senhora grávida entrou pela porta da frente. É que, naquele tempo, era por lá que os passageiros desciam.

Dentro do ônibus, a disputa por espaço era geral. Um lugar mais cômodo para colocar as mãos para se segurar, principalmente durante as curvas que eram feitas como se não houvessem passageiros. Um lugar para conseguir colocar os dois pés no chão, sem precisar ficar se equilibrando apoiado apenas na ponta dos dedos. No mais, era um escorado no outro como aqueles caminhos de dominó prestes a serem derrubados. Na hora de alguém descer, as pessoas que estavam em pé se jogavam sobre as que estavam sentadas, que, por morarem mais longe, foram agraciadas com esses lugares mais do que desejados. Quando uma pessoa se deslocava pelo corredor, na maioria das vezes com pressa para não perder a vez de descer em sua parada, quem estava em pé era comum sentir aquele calçado, cheio de barro, deslizando pela perna da calça indo do joelho até o calcanhar.

Depois de mais de uma hora naquele aperto, com as janelas fechadas, sem ar-condicionado, respirando aquele ar repleto de vírus de gripe e com cheiro de cachorro molhado por todos os cantos, no qual identificava várias pessoas que haviam acompanhado a missa na noite anterior, Poletto começou a refletir sobre aquela realidade. Em suas orações – entre uma olhada e outra para a rua onde via carros de luxo passarem com um ou dois passageiros –, ele se questionava sobre a justiça daquela situação. Imaginava como seria a vida daquelas pessoas que todos os dias viviam aquilo. Conforme as pessoas iam descendo, os espaços iam surgindo. Aproveitou para se aproximar do guri que estava à procura de emprego.

— E tu vais começar por onde? – perguntou Poletto puxando papo.

— Em uma obra em um bairro chique aqui de Porto Alegre. O anúncio diz que precisam de serventes. – disse com um brilho nos olhos de quem deposita sua esperança por dias melhores naquele anúncio.

— Com certeza vai dar tudo certo. – estimulou Poletto.

— Se Deus quiser! – respondeu confiante o guri.

Se Deus quiser, ficou pensando Poletto. E ele há de querer. O guri que, hoje, procura um emprego, ontem, estava na Casa de Deus. Em seu movimento de aproximação com a vida real das pessoas, Poletto pediu para acompanhá-lo até a obra. Como estava vestido com a roupa dos Capuchinhos, não foi difícil receber um positivo como resposta. E assim o fez. Desceram na parada mais próxima e caminharam por cerca de 10 quadras até o endereço que constava no anúncio. No caminho, houve tempo suficiente para o guri falar de toda a sua vida. O abandono pelo pai ainda jovem e a necessidade de cuidar dos irmãos mais novos enquanto a mãe dava duro como diarista. O sonho de ser jogador de futebol. A dificuldade que tinha com a matemática.

Chegaram à obra, e Poletto desejou boa sorte ao guri. Combinou que lhe aguardaria no banco da praça em frente. Não demorou 15 minutos, e ele já estava de volta.

— E então, tudo certo? – perguntou Poletto com ar de felicidade.

— Não. Eles pedem experiência. Mas como vou ter experiência se ninguém dá a primeira oportunidade? – respondeu o guri mostrando que aquela resposta era bastante comum em suas entrevistas de emprego.

— Mas da próxima vai dar certo, tenha fé, não desanime. – reagiu Poletto numa tentativa de jogar a moral do guri para cima.

— É, desta vez, Deus não quis. Quem sabe da próxima… – disse o cabisbaixo jovem ao se despedir de Poletto a caminho do endereço de outro anúncio de emprego.

Poletto ficou por ali mesmo. Sentado naquele banco de praça, pôs-se a pensar. Na companhia de um mendigo com o seu cachorro, em outro banco, e de pessoas que, com suas roupas de ginástica e casacos corta-vento, aproveitavam a estiagem para praticar seus exercícios, ele buscava compreender o que vira naquele primeiro dia de sua caminhada. Cerrou os olhos, entrelaçou os dedos das mãos, baixou a cabeça e, ali mesmo, começou a falar com Deus. Permaneceu assim por mais de uma hora. O silêncio era apenas quebrado pelos motores de carros possantes, pelo bater dos pés com tênis na pista de corrida da praça ou pelo choro de bebês em seus carrinhos empurrados pelas babás – todas elas vestidas de branco, como enfermeiras.

Os questionamentos, feitos em silêncio, eram muitos. Primeiro as dúvidas. Será que a senhora grávida havia conseguido a consulta? E aquele homem que chegaria atrasado ao emprego por não ter conseguido embarcar em três ônibus que passaram lotados pela sua parada, ele perderia o emprego como havia demonstrado ter medo? O jovem a procura de emprego teria sucesso? Porém, o que mais lhe intrigava e o motivava a falar com Deus era as diferenças que havia percebido naquele primeiro dia de sua caminhada. Deveria ser encarada com naturalidade a imensa diferença da qualidade de vida entre aqueles que moravam nos bairros mais simples e aqueles que andavam em seus carrões e moravam nos bairros onde ele estava agora? Também deveria ser naturalizada a questão de alguns jovens terem de trabalhar desde cedo enquanto outros só começam depois de formados em uma universidade? Deveria ser visto como normal o fato de algumas crianças não serem acompanhadas durante a gravidez de suas mães enquanto outras recebem o cuidado por toda a vida?

Depois de um tempo fazendo suas perguntas a Deus – e, talvez, sem ter dado tempo para que Ele lhe respondesse –, levantou-se e, sem ouvir respostas, foi conversar com o morador de rua que brincava com seu cachorro sentado no banco ao lado.

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