Garimpando picolés

Rafael era como todo menino de sua idade. Quando não estava na escola, sua brincadeira preferida era jogar futebol na rua de terra ou no campinho em frente à sua casa, de onde, costumava voltar com os pés pretos de carvão dos restos da fogueira de São João, que permaneciam por lá o ano todo. O tempo que sobrava era dividido entre o jogo de tacos, ainda com os galhos de cinamomo sendo usados para fazer as casinhas, e uma estranha brincadeira de liga-pontos, em que os guris iam arremessando uma chave de fenda no chão e, sempre que ela fincava na terra, avançavam riscando um caminho com o ponto anterior até chegar ao destino final. Aliás, essa brincadeira lhe rendeu uma chave de fendas espetada no dedão do pé. Fora arremessada por um dos seus quatro amigos que moravam em uma casa laranja do outro lado da rua. Também sobrava tempo para andar na bicicleta que havia herdado de seu primo, que, por não ter freios, já havia causado vários acidentes, e para encenar histórias baseadas nos seriados americanos Bonanza, Laredo e James West – aos quais todos os amigos assistiam no dia anterior.

Nunca fora gordinho. Mas para magro não servia. Adorava doces. Ao lado da rapadura com doce de leite, os picolés eram suas preferências. Contudo, os momentos eram difíceis e essa não era a prioridade no cardápio de sua casa. Não foram poucas as vezes em que, morrendo de vontade de comer um doce, fora pingar duas ou três gotas de limão bergamota em uma leiteira com leite que descansava à noite na geladeira na esperança de azedá-lo para que virasse ambrosia no dia seguinte. Naquela época, ele morava em Viamão e estudava em uma escola municipal para a qual ia pulando sanga, atravessando campo de futebol, trilhando no meio do mato, respirando poeira no verão e pisando no barro no inverno. A placa de publicidade da marca de sorvete, com aquelas cores azul, amarela e branca, fixada na parede externa do armazém que ficava na esquina do campo de futebol, lhe enchia a boca de água todos os dias em que passava por lá. Fizesse calor ou frio. E o pior é que passava por lá todos os dias. Durante a semana para ir à escola ou, aos finais de semana, para assistir aos jogos do juvenil, do aspirante, do segundo e primeiro quadros e dos veteranos do time do Florença.

Seu pai, um funcionário público do Estado, trabalhava como motorista no Departamento de Portos e passava meses sem receber salário. Viviam – ele, sua irmã e seu pais –, enquanto não entrava o salário do pai, apenas com o que sua mãe ganhava como manicure atendendo a domicílio ou no salão de beleza que funcionava aos finais de semana em um corredor de sua casa. Daí o porquê de não serem permitidas extravagâncias. Apesar de nunca lhes faltarem nada. Aquele picolé da placa no armazém costumava ficar para depois.

Parte de sua infância, Rafael viveu no bairro da Azenha. Não era onde moravam seus avós ou algum parente próximo. Era ali, nesse bairro de classe média de Porto Alegre, que ficava o estádio Olímpico, que, na época, ainda não era o Monumental. Durante vários anos, todos os domingos em que haviam jogos, lá estava ele. É desse tempo a construção da sua relação de amor com o time. Seu padrinho, que foi quem lhe converteu ao tricolor gaúcho, era diretor de uma torcida organizada do clube. A torcida oficial que homenageava Eurico Lara, um goleiro nascido em Uruguaiana e que fez história com a camisa número 1 do Grêmio.

Era com esse padrinho que Rafael passava os dois meses de férias de verão em Cidreira, uma praia a pouco mais de 100 km de Porto Alegre, de mar aberto e águas por vezes repletas de algas que lhe deixavam com aspecto sujo.

Olha o picolé e sorvete da Kibon – gritava o guri caminhando pela rua de pedras em frente à casa de praia de seu padrinho, carregando, pendurada no ombro, uma caixa de isopor com aquela marca em branco, azul e amarelo colada em sua face externa. Esse som, vindo daquelas cordas vocais, na maioria das vezes da mesma idade de Rafael, lhe ativavam os alertas de falsas quedas de serotonina, o que também poderia ser traduzido por gula. Era o período do ano em que mais se refrescava com picolés. Sorvia cada um como em um ritual. Não desperdiçava um pedaço, uma gota sequer, pois sabia que, quando março chegasse, a realidade seria outra.

Dentre as pessoas que estenderam a mão para Rafael e sua família durante os tempos, esse padrinho se destacava. O terreno onde moravam, por exemplo, fora comprado com a venda de um Chevrolet que havia sido doado por ele a Rafael, como parte de uma herança a qual nunca entendeu muito bem. Entre outras tantas iniciativas para ajudar a família, seu padrinho contratou seu pai para uma vaga de vendedor de souvenires do Grêmio durante os jogos. Mas essa não era uma vaga qualquer. Havia os que saíam em meio à torcida vendendo os produtos com braços e ombros carregados. E seu pai, que ficava em uma espécie de lojinha instalada no último nível da arquibancada das sociais, bem na altura da linha central do gramado, no caminho para banheiros e para um dos portões de saída. Movimento garantido.

Seu pai vendia de tudo naquele balcão-loja de vidro. Como as arquibancadas eram de concreto, como todos os estádios da época, um produto que tinha uma grande saída era a almofadinha. Uma espuma de baixíssima densidade, mais fraca do que aquelas utilizadas em colchões de bebês, revestidas com um plástico com o distintivo do Grêmio impresso em um dos lados. A venda dessas almofadas ser tão grande pode ser creditada a vários fatores. Um, é claro, era a dureza e aspereza do piso em que os torcedores tinham que sentar para assistir aos jogos. Ainda mais aqueles da social, que assistiam aos jogos quase sempre apenas sentados, se levantando apenas para xingar o time. Às vezes, nem para isso. O segundo: a qualidade do produto que não era lá essas coisas. E o maior motivo, na opinião de Rafael, era o fato de o time naquele período mais perder do que ganhar. Com a irritação, os torcedores tentavam jogar para dentro do campo aqueles objetos leves que chegavam quando muito até o fosso. Mas outros produtos eram vendidos por seu pai. Chaveiros, flâmulas – as preferidas de Rafael –, bandeiras, camisetas, bonés de vários modelos. Era uma butique com um número variado de produtos.

Pai, posso ir ao jogo hoje? – disse determinado, quase choroso, Rafael, mostrando que algo além de assistir ao jogo constava de seus objetivos.

Não guri, jogos à noite, tu sabes que não dá para tu ires. Domingo, tu vais. Hoje, termina muito tarde e depois tem o fechamento das vendas.

Essas eram palavras mágicas para Rafael. “O fechamento das vendas”. Não porque era o momento em que seria apurada a comissão que seu pai receberia pelo movimento do dia. Ele nem tinha noção disso. Mas, sim, porque era, nesse momento, enquanto seu pai repassava para o padrinho o que havia vendido e este, com os dedos velozes, operava a sua máquina de somar Facit H9s6 verde com bege, como só os contadores experientes eram capazes de fazer, que Rafael partia para a sua maior aventura da semana. O garimpo.

Após o apito final do juiz, começava o jogo para Rafael. Enquanto seu pai fazia o balanço do dia e as pessoas subiam aquelas longas arquibancadas em direção ao portão a caminho de suas casas, Rafael sentava na fileira mais alta a espera de ter aquela parte do estádio toda para si. Não queria testemunhas. Ou, talvez, sócios. Quando todos já haviam saído, partia em disparada subindo e descendo aquelas arquibancadas.

Em dias de derrotas, Rafael via de tudo em seu garimpo pelas sociais do Olímpico. Almofadas e radinhos de pilhas que eram arremessados longe pelos torcedores mais exaltados eram bastante comuns, mas o que fazia seus olhos brilharem e as lombrigas se movimentarem era os palitos premiados de picolé que as pessoas concentradas no jogo não percebiam e os jogavam fora. Este era o seu objetivo.

A propaganda dizia que eram milhares de prêmios dos mais diferentes tipos. Mas Rafael tem uma teoria, baseada em suas estatísticas, que não passava de propaganda enganosa. Os prêmios se resumiam a outro picolé. Mas o que importa?! Isso já era muito. Toda a vez que ele achava um palitinho de madeira daqueles, jogado ao chão, com “Vale um picolé” escrito em letras marrons, tipo aquelas feitas com pirógrafo, a festa era enorme. Subia faceiro aquelas arquibancadas como quem houvesse achado um tesouro. E era um tesouro. Março já havia passado e a ida para a praia estava muito distante.

Pai, olha só. Um, dois, três, quatro… – Rafael não cansava de contar. Ficava a viagem toda, de Azenha a Viamão, falando para o pai quantos palitinhos premiados havia encontrado.

Muito bem Rafael. Então, hoje o dia foi bom pra ti. Pena que nosso time não ganhou, não é? – respondia o pai, mesmo sabendo que pouco importava para o guri o resultado do jogo. Aliás, ele nem sabia quem eram Loivo ou Atílio Genaro Anchieta. Tampouco se a escalação daquele dia, colocada em campo por Otto Glória, foi, além desses dois, Jair, Espinosa, Beto Bacamarte, Everaldo, Jadir, Gaspar, Flecha, Alcindo e Caio. Ele só queria saber dos seus palitos premiados, que garantiam uma semana inteira de picolés.

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