Resoluções de ano novo

A garoa caia fina sobre as barracas, guarda-sóis e cabeça das pessoas como sempre acontece no 31 de dezembro nessa região do Brasil. A maré recuará e oferecia uma grande faixa de areia à multidão que, como em todos os anos, usando roupas predominantemente brancas, se aglomerava com os olhos para a África. Católicos e evangélicos inclusive. Já era noite, mas ainda faltavam algumas horas para a meia-noite.

E como sempre, no último dia do ano, lá estava Domingos repetindo seu ritual. Não sabemos muito bem para quem, se para Jesus Cristo, para Iemanjá ou para algum materialista dialético das profundezas do mar, mas lá estava ele fazendo suas promessas para o ano que entra. Avaliações sobre o ano que termina, desculpas por erros cometidos, planos para acertar mais do que errar no futuro. E claro, o pulo sobre as sete ondas. Tudo como fora no ano anterior e nos anos anteriores a este.

Mas desta vez será diferente. Ele promete. E para isso fez um plano estrategicamente planilhado. Item por item colocado nas linhas e colunas do Excel. Dia por dia, turno por turno. Os 365 dias do ano vindouro distribuídos em 365 diferentes abas. Plano que passou o dia todo explicando para os outros como quem precisa se convencer de sua viabilidade.

– Camila, vou começar já amanhã – disse ele à sua esposa ainda na manhã do dia 31.

– Que ótimo – responde a esposa com um certo descrédito na voz de quem já conhecia o filme.

– Sério. A partir do primeiro dia do ano vou abandonar as bebidas alcoólicas. Comer? Só proteínas. Nada de carboidrato. Exercícios físicos no mínimo 5 dias por semana, 45 minutos por dia – no mínimo. Lerei, pelo menos, 4 livros por mês. E vou começar pelo Les Miserables de Victor Hugo. Os doces, meu grande vício, deixarei de lado. A mesma coisa com a Coca Zero.

 – E você acha que vai conseguir cumprir isso Domingos? Não acha que está um pouco ousado demais? – reagiu a mulher já zombando do marido.

– Claro. Tu ficas aí de graça. Mas vai ver só. São as minhas mais convictas resoluções de ano novo. Vou conseguir. Vou te provar que a minha força de vontade é maior que as tentações.

 E assim Domingos seguiu o dia explicando seus planos, suas metas e seus objetivos para o novo ano. Aos vizinhos, com quem nunca teve lá muita intimidade – entre um copo e outro de cerveja à beira da piscina, falava sobre aqueles compromissos que tinham mais a ver com a vida no condomínio. Sim, o plano era completo. Para cada momento de sua vida existia pelo menos um ponto. E assim ele foi levando este último dia do ano.

– Durante este ano vamos pescar três vezes em rios e duas no mar – disse Domingos ao filho mais velho.

– Vamos de novo pescar na Argentina pai? – respondeu empolgado.

– Claro. Em abril. E em julho no Mato Grosso; e setembro no Amazonas. – relatou o seu plano em detalhes deixando o filho empolgado.

Naquela tarde, ao fazer o filho mais novo dormir, como se o guri de dois anos e meio entendesse tudo o que ele falava, passou a lhe explicar os pontos das suas resoluções de ano novo que mais tinham a ver com o pequeno. Mesmo depois de o guri ter feito a mamadeira roncar, entregue em suas mãos e ter dito boa noite, como – independente da hora, sempre fazia antes de dormir, Domingos seguiu falando.

– Não importa o jogo de futebol que estiver passando, se tu quiseres assistir “Os Amigossauros” podes usar a televisão da sala.

 Domingos seguiu ainda um tempo ali, ao lado da cama do filho mais novo, falando sobre compromissos de mudança de comportamento que teria no ano novo. No final da tarde senta com a mulher na varanda e olhando para o horizonte, abre o coração.

– Sabe amor, tu pensas que eu não sei quando erro. Mas, quase sempre eu percebo. E no ano que vem, uma das minhas promessas é ser menos chato contigo. Vou ser menos turrão com algumas coisas. Cobrar coisas como que tu feches as portas dos armários ou que prepares lista para supermercado para não ires tantas vezes fazer compras não farão mais parte do nosso cotidiano. Ah! E também esse negócio de reclamar que tu não abasteces o carro será coisa do passado.

 – Sei. – responde a mulher sem um pingo de crédito na entonação da voz.

 – Juro, espera só começar o novo ano pra tu veres. Serei outro homem.

 A garoa ganha força. As pessoas se revezam em suas oferendas, declarações e preces ao mar. Domingos, a esposa e os guris não arredam o pé. O mais novo enrolado em uma toalha sob o guarda-sol no colo da Camila. As promessas de ano novo – ou compromissos como ele gosta de frisar, são inúmeras. Leva tempo. A paciência dos três com aquele ritual já se esgotara há algum tempo. Mas a solidariedade com o marido e pai superam os obstáculos da impaciência.

Depois de quase uma hora, sob a chuva e com o vento nordeste batendo firme aumentando a sensação de frio, Domingos conclui o rito que havia desenhado por um bom tempo. Voltam para sua casa para a ceia, a contagem regressiva e o brinde ao ano novo. Chegando já encontram a parentada – que fora poupada de ir até as areias da praia, bebendo um espumante da Serra Gaúcha. Domingos se incorpora à turma. Da primeira à segunda taça frações de segundos. E dessa para as próximas aumenta um pouco o intervalo, mas não muito.

Três, dois, um. Estoura a rolha do espumante causando protestos nas ruas da região de Champagne. É ano novo no Brasil. Tecnicamente ainda não pois estamos em horário de verão. Mas como tudo isso é uma convenção, está valendo. E todos, incluindo Domingos, seguem no espumante até acabarem com as garrafas. O porco, a farofa, o arroz com uva passas, a lentilha, a romã, tudo isso vira detalhe. Partem para a cerveja. Domingos firme. Bebe uma, duas, três. Já está prestes a chegar naquele estágio em que chama urubu de meu louro quando é chamado em um canto por Camila.

– Domingos, você não acabou de fazer a promessa de parar de beber? Você já está na décima latinha. – disse a mulher mostrando irritação.

– Sim amor, foi isso mesmo que falei. E esse segue sendo o meu compromisso. – respondeu Domingos sem mostrar nenhuma defensiva.

– Então Domingos. Já estamos no ano novo. E você continua enfiando o pé na jaca.

– Como assim? O ano não começa só depois do Carnaval?

3 comentários Adicione o seu

  1. Elisabeth ell disse:

    Feliz 2018 !Belas promessas com pouca chance de se cumprir ..mas se fizeres a metade parabens !

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  2. Arnaldo disse:

    Caro senhor domingos, acho que a Paula ops a senhora camila , esqueceu que o ano só começa depois do carnaval kkkk torço por vcs , e eu gostaria que vc alcançasse seus objetivos em 2018.
    Bom ano e fiquem com saúde , abraço !

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  3. Caio Almeida disse:

    Começa depois do Carnaval…!!……depois da Copa do Mundo…depois das eleições…!! Haaa o Ano Novo já esta ai..!! kkkkk

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