Gabriel

Era um 17 de março. O calor daquele final de tarde e início de noite em Porto Alegre era intenso. A umidade e o calor faziam todos transpirarem parados. Mariana e Ernando haviam saído de um bar próximo ao Parque da Redenção, onde comemoravam o aniversário de um primo dele. Pilotaram a CG vermelha 1982, com mata-cachorro, guidão de Turuna e rodas cinzas pelas avenidas João Pessoa e Azenha. A pressa juvenil fazia com que a manopla ficasse mais leve. Chegaram ao destino. Estacionaram no pequeno espaço reservado às motocicletas na garagem coberta. Subiram dois lances de escada até a recepção e fizeram o check-in.

Tu tens certeza que te cuidas?”, disse Ernando com as mãos apoiadas na cintura de Mariana, olhando-a sobre seus ombros, avistando a lateral do rosto, emoldurado pelos lisos cabelos finos e louros. “Claro. Ou tu achas que estás falando com uma criança?”, ela respondeu virando o rosto e olhando para cima, bem em direção aos olhos dele. Esse intervalo de dúvida aconteceu depois de longos e intermináveis cinco minutos de preliminares, no exato momento anterior a consumarem aquilo que havia lhes levado até lá.

Mariana e Ernando haviam se conhecido há algum tempo. Ela nem havia saído das fraldas. Sim. Ernando estudara com o irmão de Mariana entre o jardim de infância e a segunda série. Nesse período, as mães de ambos se revezavam na tarefa de levá-los à escola. Quando era a vez da mãe de Mariana, ele chegava antes a sua casa e costumava ficar brincando com ela enquanto a mãe arrumava o irmão.

Muitos anos depois se reencontraram. Em um sábado de Carnaval no litoral. Os três, ele, ela e seu irmão pulavam o Carnaval no CPC – o Cidreira Praia Clube, quando aconteceu. A troca de olhares, a roda em volta da pista segurando-a pela cintura, o abraço com o beijo no pescoço, o primeiro beijo beijado. As saídas do salão para se refrescarem e namorarem encostados no muro do clube. Todos os detalhes construíram a atmosfera de paixão que envolvia aqueles dois corpos juvenis. Ele com 17 anos, e ela, recém-completados, 15.

Será que nossos destinos foram traçados na maternidade?”, arriscou Ernando brincando com a música do Cazuza. Estavam sós na casa de praia que os pais dela haviam alugado para aquela temporada. Deitados no chão da sala, entre um carinho e outro, assistiam à apuração do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. “Ou no berço”, respondeu Mariana, entrando na brincadeira.

Durante aquela semana de Carnaval, até o domingo após o enterro dos ossos, os dois não se desgrudaram. As caminhadas nas manhãs pelas areias socadas da beira da praia serviam para colocar as histórias de vida em dia. Os passeios de bicicleta pelas ruas de pedras irregulares aos finais de tarde os levavam a distâncias ainda maiores. O sorvete à noite coroava aqueles dias que lhes pareciam mágicos.

Logo depois, começaria o ano letivo escolar, e os dois voltariam às suas cidades. O namoro seguiu. Através de telefonemas no final da noite e encontros aos finais de semana, os dois foram se re-conhecendo melhor. Afinal de contas, já havia se passado uma década desde que tinham deixado de se ver, desde que ele havia se mudado de Porto Alegre para Esteio. Ela com quatro, cinco anos, e ele com seis, sete. Eram outras pessoas. Na verdade, eram pessoas em formação.

Mas o namoro não passou de uma paixão de verão. Terminaria poucos dias depois daquele 17 de março. O fato de morarem em cidades diferentes – apesar de Ernando trabalhar e estudar em Porto Alegre, talvez tenha contribuído para o término. Talvez tenham descoberto que não combinavam tanto assim como imaginavam. Terminaram sem brigas, sem rusgas, sem ressentimentos. Simplesmente acabou. Desfez-se o encanto. Perderam o contato.

***

Era um domingo, em meados de agosto quando Ernando recebeu notícias de Mariana. Ele estava deitado no sofá da sala, esperando a hora em que jogaria uma partida de futebol de salão pelo campeonato do ginásio perto de sua casa, quando tocou o telefone. Era aquele primo da comemoração do aniversário. “Parabéns”’, disse do outro lado da linha o primo antes mesmo de dizer boa tarde. “Parabéns por quê? Tá louco. Meu aniversário foi no mês passado”, disse, rindo, sem entender muito bem aonde aquela conversa chegaria. “Não tchê, os parabéns é porque tu vais ser pai”, explicou o primo sem qualquer cerimônia. A frase entrou como um direto em seu estômago. Automaticamente, tudo começou a se revirar por dentro. “Como assim ser pai?”, perguntou Ernando já com a voz trêmula. “É, a Mariana comentou lá na escola que está grávida e que o filho é teu”, respondeu o primo, que estudava na mesma escola e morava na mesma rua em que Mariana.

Ernando desligou o telefone sem se despedir. Em estado de choque, deitou-se novamente no sofá e ali ficou olhando para o nada. O forro de tábuas macho e fêmea em tons de cinza girava sobre sua cabeça. Estava sozinho em casa. Ainda bem. Ninguém para lhe fazer perguntas para além das que ele mesmo fazia. “Como assim? Ela falou que se cuidava. Mas também… eu tinha que ter me cuidado. Nos cuidado. Afinal de contas, eu sou o mais velho. Mas não por isso, só. Eu tinha a responsabilidade de cuidar pra que isso não acontecesse. Que cagada”, falou em um solilóquio, meio atropelando os pensamentos, sem entender muito bem o que a situação representaria para suas vidas.

“O que fazer agora?” Era a pergunta que não saía da sua cabeça. Ele precisava falar com Mariana. Precisava ouvir da sua boca que aquilo era verdade. Ele não acreditava. Não queria acreditar. Com a cabeça explodindo em pensamentos, participou do jogo. Foi diretamente responsável pelo resultado. Jogava no gol, e seu time perdeu.

Imediatamente após o jogo, pegou a moto de um amigo emprestada e rumou em direção à casa de Mariana. Durante todo o caminho, apenas pensava que aquilo não passava de um pesadelo. As nuvens carregadas de frio ameaçavam cair sobre sua cabeça. Apesar de não ter carteira, nem se preocupou em desviar da rodovia onde corria o risco de ser abordado pela polícia rodoviária. Queria apenas chegar ao seu destino e ver se desfazia a confusão que invadia seu coração.

Ao chegar, bateu palmas no portão alto de madeira que servia para a entrada de carros. A mãe de Mariana veio lhe atender e lhe disse que ela não estava em casa. “Ela não deve demorar. Quer entrar e esperar?”, disse simpática e educadamente. “Não, não. Eu vou ali na vó e passo mais tarde aqui pra falar com ela”, respondeu demonstrando estar assustado. Subiu na moto e ficou dando voltas pela quadra. Não foi ver seus avós que moravam algumas casas, rua abaixo. Não queria encontrar aquele primo que lhe dera a notícia. Subia e descia aquela rua de terra despreocupado se poderia derrapar e cair sobre a fina camada de lama que se formara com a fina chuva que caiu naquela tarde. Só queria ver o tempo passar. Ou parar. Ou talvez, voltar atrás.

Da esquina onde estacionou, pôde ver o momento em que Mariana chegou a casa. Seu coração acelerou ainda mais. O frio na barriga mexeu com seu intestino. Bateu o pavor. Pensou em dar a volta. Se Mariana não havia lhe falado, era porque o filho que ela carregava na barriga não devia ser seu. Ponderou. Talvez ela não tenha lhe contado por não ter encontrado a oportunidade. Era preciso enfrentar a situação. Virou a chave, bateu o pé, deu partida, engatou a primeira levantando lentamente a ponta do pé esquerdo e soltou a embreagem ainda mais lentamente. Seguiu para a casa de Mariana.

Ernando nem parou de bater palmas, e surgiu Mariana na varanda da frente. Por sua reação, já havia sido avisada que estivera ali antes e que retornaria. Estava séria. Não carregava o sorriso que era sua marca registrada. “Oi. O que tu queres”, disse de forma seca, sem, contudo, ser mal-educada. “Preciso conversar contigo”, respondeu Ernando pisando em ovos. Sem convidá-lo a entrar e querendo encerrar logo aquela conversa, Mariana perguntou: “Sobre o que tu queres falar. Acho que não temos nada para conversar, não achas?”. “Sobre a gravidez, Mariana. Sobre a gravidez”, respondeu firme Ernando, relatando o que seu primo havia ouvido na escola e lhe contado. Mariana, viu sua pele alva ficar rosa e, depois, vermelha. Ficou instantes sem falar nada. Olhava fixamente para Ernando. As lágrimas encheram seus olhos sem lhe escorrer pelo rosto. “Não temos nada para falar”, falou fechando o portão indicando um final de conversa.

Mariana virou de costas e começou a subir as escadas com lajotas avermelhadas que dão acesso à porta da frente. Nem bem tinha pisado no terceiro degrau, saiu pela porta a sua mãe. Ela foi até o portão. “Entra guri. Precisamos conversar mesmo”, disse amistosamente aquela senhora que, por tantas vezes, havia lhe levado à escola.

Na sala já, estavam o pai e o irmão de Mariana. O pai sério, sentado em uma poltrona, mal levantou a cabeça para os cumprimentos. O irmão, em uma cadeira junto à mesa de jantar, levantou-se e cumprimentou Ernando de maneira carinhosa. A mãe e Mariana sentaram-se no sofá. Ernando na outra poltrona de frente para o pai e lateralmente para Mariana. O silêncio se instalou por alguns instantes até que a mãe tomou a iniciativa. “Então, o que tu estás pensando Ernando?”, perguntou carinhosamente. “Juro que não sei o que estou pensando Dona Flora. Nem se estou pensando em algo. Mas eu queria perguntar uma coisa para a Mariana”, respondeu Ernando, economizando respiração entre as palavras e já emendando a pergunta: “Aninha (era assim que se tratavam no curto período de intimidade que viveram), tu tens certeza de que eu sou o pai desse bebê?”. Do outro lado da sala, o pai se ajeitou na poltrona, projetou o corpo para a frente e perguntou, fuzilando Ernando com o seu olhar: ”Por quê? Tu tens dúvida?”.

Mais uma vez o silêncio se fez presente. Ernando olhou para Mariana, que olhava para baixo. Olhou para a mãe que devolvia o olhar, agora mais sisudo. “Tenho dúvidas, tenho sim. Por que a Mariana não veio falar primeiro comigo? Por que não fui o primeiro a saber? Por que fiquei sabendo por terceiros? E como eu não fui o primeiro homem na vida dela, posso não ter sido o último, é só isso”, disse sendo sincero em seus sentimentos. Todos, irmão, pai e mãe olharam imediatamente para Mariana. Era claro que, para todos, a única experiência sexual dela havia sido com Ernando. Mariana, antes que lhe perguntassem algo, respondeu que sim, que havia tido relações antes com um ex-namorado. A surpresa foi geral.

“Mas, Ernando, sim esse filho é teu. Não teve ninguém depois de ti. E nem um bom tempo antes. Por isso, tenho certeza de que é teu”, disse Mariana com a certeza na voz. “Então vamos nos casar”, tascou de imediato Ernando, talvez sem pensar muito que ele tinha 17 anos e ela 15. Todos foram pegos de surpresa, em especial, Mariana. “Isso mesmo. Vocês podem morar aqui nessa casa. Nós vamos mudar para a nova no final do ano”, disse o pai entusiasmado, também talvez sem pensar muito bem. A mãe, mais racional em meio a toda aquela situação, ponderou se era isso o que a filha queria. “Não, mãe. Não quero me casar. Sou muito nova. Ernando a única coisa que quero de ti é que dê o nome para essa criança. Que ela tenha um pai”.

Com a resposta, as dúvidas ficaram ainda mais fortes na cabeça de Ernando. Com sua visão machista, não podia aceitar um não como resposta. Mariana preferia ser uma mãe solteira. Não entendia e não concordava com aquilo. Mas, no final das contas, não era ele quem decidiria pelos dois. “Aninha, se tu estás falando que esse filho é nosso, é claro que vou assumir todas as minhas responsabilidades. Claro que vou registrar. Claro que vou assumir”, disse Ernando com os olhos cheios de lágrimas em um misto de felicidade de quem quer comemorar alguma coisa, sem não saber muito bem o quê, e de tristeza, por pontas de incertezas que ainda pairavam em sua cabeça. “Vamos combinar assim, vamos nos falando e tu vais me deixando a par de tudo durante gravidez. Sei que não estamos mais juntos, mas quero participar. Pode ser?”. Se falariam por telefone e combinariam de se encontrar.

Mas não foi assim que aconteceu. Num primeiro momento, as ligações eram diárias. Teve duas ou três visitas. As ligações começaram a ficar mais secas, evasivas, protocolares. Até que ligações e visitas não aconteceram mais. De parte a parte, afastaram-se. Mariana deveria ter lá os seus porquês. Ernando motivado pelas dúvidas que ainda persistiam. Dos últimos meses da gravidez, ele não teve qualquer notícia.

Notícia que chegou a uma tarde, por telefone no trabalho de Ernando. Era sua mãe lhe falando que sua tia, que morava no mesmo terreno de seus avós, tinha visto Mariana indo para o hospital para ganhar o bebê. Sua mãe correu para o hospital, e Ernando seguira na sequência. Nenhum dos dois pôde acompanhar o parto ou ver o bebê. Foram proibidos pela mãe de Mariana. Uma punição, talvez, pelo período de abandono dos últimos meses. Nascera Gabriel. Filho que Ernando só viria a conhecer dois anos depois.

1 comentário Adicione o seu

  1. Florinda disse:

    Triste e lindo.
    Eu sento na sala e sinto o calor da conversa. A surpresa, as incertezas e agora o menor dos problemas é saber com quem o bebê vai parecer.

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