Fui ali falar com Deus II

Poletto segue sua caminhada em busca de conversas com Deus. Decidira o próximo destino durante uma aula de estatística que cursara como crédito complementar ao seu curso de Filosofia. Nela, teve contato com um relatório do IBGE com a pirâmide social brasileira e sua imensa base e um topo com pouquíssimos felizardos. A concentração de renda, naqueles idos da década do dito milagre econômico, era absoluta.

Como fazíamos pelo menos em uns três dias da semana, estávamos sentados em um banco de madeira e ferro no saguão do Prédio 5 da PUC, colocando a conversa em dia. “Como vivem as pessoas que estão no nível mais baixo da pirâmide social?” – A pergunta, assim do nada, jogada por entre aquelas colunas imponentes em um bege quase rosa que ligavam um lindo piso de lajotas antigas ao teto, dando forma àquele pé direito alto, estava carregada da preocupação sincera de Poletto. Assim como veio, provocou em mim uma resposta automática. “Se é que vivem, Poletto”.

Um silêncio reflexivo se fez presente. Poletto pôs-se a olhar para capela a nossa frente buscando respostas. Apesar de todo o tempo de convívio com os Capuchinhos, ainda não havia conhecido a pobreza absoluta. As comunidades onde já havia trabalhado tinham sido sempre de classe média-baixa. Pobres sim, mas não miseráveis. Tanto em Caxias do Sul como em Viamão, sempre havia desempenhado suas funções junto às famílias em que pelo menos um dos membros, invariavelmente o homem, tinha um emprego. Salários baixos, mas tinham alguma renda familiar. Mas não eram dessas famílias que ele estava falando.

Eu preciso conhecer esta realidade. Não posso ficar apenas com a perspectiva dos números em uma tabela. Por onde devo começar?”, perguntou-me Poletto demonstrando aflição por começar o seu trabalho de campo. Na época, eu trabalhava no Departamento Municipal de Habitação da Prefeitura, acompanhando processos de regularização fundiária e urbanização de comunidades carentes da capital. Já tinha visto de tudo um pouco. “Comece pela Vila Cai-Cai”, sugeri, indicando-lhe, na sequência, a localização. “Fica ali na beira do Guaíba. Logo depois do Beira Rio, indo para a Zona Sul”. Poletto, fazendo sinal positivo com a cabeça, bateu no meu ombro e disse irradiando alegria: “Ótima sugestão. Começo lá amanhã mesmo”.

****

No dia seguinte Poletto não iria para a faculdade. Do Seminário Maior em Viamão, onde morava, seguiria direto para a Vila Cai-Cai. Uma comunidade formada, basicamente, por famílias de desempregados e catadores de papel, era um amontoado de casas de compensado e papelão, com seus telhados de lona ou zinco. A energia era garantida pelas gambiarras puxadas da rua, e a água para toda a comunidade fornecida por uma única torneira instalada pelo Departamento Municipal de Águas e Esgoto. Esgoto, aliás, que não existia. As necessidades eram feitas em patentes de madeira com buracos cavados próximo às casas.

Poletto optou por descer do ônibus algumas paradas antes e seguir caminhando. Durante esse trajeto feito a pé, margeado, à direita, pelo estuário – onde se dá o por do sol mais bonito do Brasil – e, à esquerda, por prédios modernos e casas suntuosas que rompiam do morro que se ergue com vistas para as águas escuras do Guaíba, ficara imaginando o que o esperava.

Ao passar pelo muro alto que indicava o início da Vila, o choque. Dezenas de casas, dos mais diversos tamanhos e formas, com a utilização dos mais variados materiais – madeira, latas, papelão, lona –, amontoavam-se reservando pouco espaço para as vielas que singravam por entre aquelas vidas. Logo na primeira casa, se é que se pode chamar assim, uma senhora sentada sobre uma lata de azeite – aquelas de 20 litros –, no canto do seu cômodo, olhava para a rua pelo espaço na parede em que deveria haver uma porta. O olhar estático, sem expressão, mostrava a quantidade de expectativa existente naqueles pensamentos.

Seguiu adentrando à Vila. Os cachorros esqueléticos e desfigurados pela sarna perambulavam por entre as casas em busca de algum alimento. Ao fim de uma das vielas, Poletto avistou um homem que acreditava ter uns 60 anos de idade. Sentado sobre um caixote, aparentava não ter a perna esquerda. As muletas apoiadas na parede de sua casa, toda feita de telhas de zinco enferrujadas, asseveravam essa realidade. Poletto chegou mais perto puxando conversa. “Bom dia. Tudo bem com o senhor?”, perguntou pensando que, no lugar daquele homem, responderia que como poderia estar tudo bom se vivia naquela situação. “Tudo bem, sim senhor. Vamos levando. As dores que não me deixam em paz, mas de resto está tudo bem sim.”, disse o homem mostrando uma positividade na voz, tocando o que lhe restava da perna esquerda, indicando onde sentia dores. O homem, de nome Armando, em homenagem a Armando Antunes, o primeiro negro a jogar pelo Grêmio, time de coração do seu pai e seu, que na verdade tinha 45 anos de idade, havia perdido a perna pela falta de tratamento adequado à gangrena causada pelos diabetes.

Mais à frente, uma senhora negra, de pouco mais de um metro e cinquenta de altura, gorda e com poucos dentes na boca, estendia roupa em um varal improvisado entre as paredes da sua casa e da casa de um vizinho. Poletto a abordou. “Bom dia. Meu nome é Poletto. Será que a gente poderia conversar um pouquinho?”. A mulher virou o rosto rapidamente com a fisionomia fechada. Um pouco de medo em seu olhar. “Por que? Tu és da prefeitura?, respondeu em um misto de receio e rejeição. “Não, não. Sou estudante”, respondeu Poletto imediatamente, ao perceber a negatividade que a pergunta carregava. “Ah! Bom. É porque o pessoal da Prefeitura vive querendo tirar a gente daqui. Querem nos mudar lá pra Restinga. Imagina. Como é que meu marido vai levar o carrinho até lá. Vai morrer no meio do caminho.”, respondeu a mulher, explicando que seu marido trabalhava catando papel no Centro de Porto Alegre e não teria como se deslocar todos os dias puxando o carrinho que usava para trabalhar até o bairro onde a prefeitura queria instalá-los, que fica a cerca de 25 km do Centro da cidade. Deixar o carrinho na rua era a certeza de ser roubado.

No outro lado da rua, crianças corriam pelos becos. A gritaria mostrava toda a alegria que só a ingenuidade infantil permite existir naquele cenário. Poletto seguiu em direção a elas. Ao virar em uma esquina, pulando sobre a valeta por onde escorria as águas das chuvas, dos banhos e das pias, deparou-se com a cena que lhe faria parar a caminhada por aquele dia. Duas daquelas crianças que brincavam estavam deitadas de bruços sobre uma lona. Olhando para elas, um dos cachorros sarnentos, magérrimo, com as patas dianteiras jogadas para a frente e as traseiras espalhadas para trás. Cada uma das crianças segurava em suas mãos, levando-o para a boca como se fosse um picolé de chocolate, um pé de galinha. Lambiam e chupavam como alguém que faz a sua última refeição. E o cachorro ali a espera do que sobraria. Se é que sobraria.

Diante daquela imagem, Poletto saiu da Vila. Saiu caminhando rápido. Do bolso da sua jaqueta tirou um terço. Começou a rezar. Era uma terça-feira. Dedicou suas orações aos mistérios da dor. Da agonia à cruz, passando pelo calvário. Concluída as orações, sentou-se. Os pensamentos fervilhavam em sua cabeça.

Parou o olhar nas casas e nos prédios do outro lado da avenida. Chamou-lhe a atenção um residencial em forma de degraus com um elevador panorâmico, subindo e descendo como se fosse uma escada. Como fizera na primeira caminhada, cerrou os olhos, os dedos das mãos entrelaçados, cabeça baixa, começou a falar com Deus. Conversa que duraria um bom tempo. O barulho dos ônibus e carros não lhe perturbavam. Estava concentrado.

“Por que aquelas pessoas vivem nesta situação enquanto ali em frente, muito perto, outras estão em situação muito, muito melhor?”, perguntou, sem mover os lábios, buscando compreender o que havia acontecido com aqueles que visitara e que tinham tido menos sorte do que aqueles que agora avistara a distância. “Qual a explicação para aquele senhor não ter tido um atendimento para evitar a perda da perna?”, seguiu em seus questionamentos. “E por que diabos – disse fazendo o sinal da cruz logo em seguida a pronunciar esta palavra, a prefeitura quer remover aquela gente para tão longe, tirando-lhes as condições de trabalhar?”.

Mas o que mais lhe deixara chocado foram as crianças. “Meu Deus, o que poderiam elas ter feito para merecer aquilo?”, disse agora em voz alta, rasgando-lhe o peito, ao mesmo tempo que avistava, do outro lado da avenida, duas crianças da mesma idade andando de bicicleta e de skate. Que avenida seria essa que separaria vidas tão distintas. O que de tão grave teriam feito para agora terem que disputar comida com os cachorros.

O desespero tomou conta de Poletto. Aquela imagem das crianças que lhe partira o coração agora lhe acelera as pernas. Desesperado, saiu em disparada em direção à Usina do Gasômetro. Mais uma vez sua angústia impede-no de ouvir as respostas que com certeza Deus lhe daria.

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