Fui ali falar com Deus III

“Este final de semana passei no lixo”, disse Poletto em mais uma de nossas conversas de atualização da sua caminhada. “Como assim ‘no lixo’?”, respondi sem entender o que ele falava. Será que havia tido um final de semana muito ruim, algo de muito errado havia acontecido com ele, imaginei. “Fiquei sábado e domingo no lixão, acompanhando o trabalho de famílias de catadores”, disse me localizando no diálogo.

O lixão em questão era um aterro sanitário instalado em uma das cidades da região metropolitana de Porto Alegre. Na verdade, na época não era bem um aterro sanitário. Era apenas um lixão mesmo, pois não havia qualquer preocupação com o tratamento dado ao lixo lá depositado, vindo de várias cidades da região. O chorume invadia o subsolo e o lençol freático sem qualquer cerimônia ou dor de consciência dos ir-responsáveis.

Estávamos no restaurante universitário. Minha bandeja de inox, que refletia todos os movimentos musculares da face durante a mastigação, estava monocromática. Purê de batata, arroz, galinha assada e um feijão para quebrar um pouco do amarelado. A do Poletto já era mais tropical. Tinha a galinha, mas também uns legumes refogados que emprestavam um colorido bonito à sua refeição. “Olho pra gente aqui comendo e fico pensando quanta sorte temos”, disse Poletto sem tirar os olhos da bandeja. “Aquela cena das crianças disputando um pé de galinha com o cachorro lá na Cai-Cai, se repete com outro roteiro todas as horas lá no lixão”, seguiu agora com lágrimas lhe escorrendo no canto dos olhos.

Poletto havia chegado lá bem cedo no sábado. Os primeiros caminhões entravam pelo portão e seguiam em direção às bordas de uma montanha de lixo. Junto deles, um balé de descalços em uma dança sincronizada pela sobrevivência se instalara. Famílias inteiras – mães, pais, avós e crianças, muitas crianças – saíam disparadas em direção ao destino final dos caminhões. A pressa mostrava que cada um ali queria ser o primeiro a chegar. Se possível, antes mesmo dos caminhões.

“Parecia que estávamos em um garimpo. Aquele monte de gente correndo e literalmente se jogando no lixo”, disse falando um pouco mais baixo, pressionado pela tristeza do texto dito. “Mas, na verdade, era mesmo um garimpo. Assim que as caçambas dos caminhões levantavam, e o lixo – orgânico, plástico, papel, metal, de tudo um pouco – escorria para aquela montanha, as pessoas trilhavam caminhos não definidos sobre ela enfiando as mãos e separando o que lhes apresentava ser mais interessante”, seguiu explicando e dizendo que, apesar de toda a loucura, existia uma lógica naquela cena. Alguns pegavam metal. Outros, garrafas pet. Uns poucos eram responsáveis por separar o papel, enquanto outros o material plástico. Havia uma divisão do trabalho. Espaços ocupados, espaços respeitados. Eram especialistas.

Sempre depois que os caminhões iam embora, e aquela euforia do novo se dissipava, Poletto aproveitava para conversar com as pessoas. Quantos quilos catavam por dia, quanto ganhavam por aquele serviço, se não tinham medo de algum acidente – como se cortarem com vidros quebrados, pois não utilizavam qualquer equipamento de segurança, nem mesmo uma daquelas luvas de lona grossa. Muitos quilos e pouco dinheiro, esse era o resumo das respostas. E sobre os perigos “O que fazer moço. Se fosse só o vidro quebrado. E os ratos e baratas. E as doenças?”, disse uma senhora a Poletto.

As famílias moravam ali mesmo no lixão. Em uma tira de terreno junto à cerca, pelo lado de fora, próximo aos portões de entrada. A arquitetura das casas reproduzia as técnicas utilizadas na vila Cai-Cai. Paredes de papelão, compensado, telhas de zinco e poucas com restos de madeira. Os telhados com os mesmos materiais. A diferença ali eram os móveis. Encontrados ali mesmo, quase todas as casas tinham um sofá com os pés quebrados, um colchão com o afundamento do uso por seu dono anterior, cadeira com as telas estouradas ou encosto quebrado. Aparelhos de televisão também eram possíveis de serem vistos dentro daqueles casebres. Todos desligados, é claro, servindo de enfeite e, talvez, de aspiracional. Assim como desligados também existiam sucatas de geladeiras e fogões, que serviam como armários de comida e roupas. A pouca comida e roupa que tinham.

“Quanto tu ganhas por dia aqui no lixão?”, perguntou Poletto a um senhor negro, de nariz nem largo nem fino, poucos cabelos na cabeça, quase nenhum dente na boca, um amarelo no lugar do branco dos olhos, uma falta absoluta de brilho na íris. “Ah, moço, eu lá vou saber de uma coisa dessas. Não dá muito não. Dá pra gente viver do jeito que a gente vive aqui. Dez, vinte dinheiros por mês. Depende de como foi o garimpo”, respondeu-lhe resignadamente aquele homem que parecia contar os dias em que permanecia neste mundo. A dúvida sobre o quanto financeiramente valia a pena viver naquela situação fez com que Poletto fizesse essa mesma pergunta a mais uma dúzia de pessoas, entre homens, mulheres, crianças e idosos. Na lógica capitalista, a resposta de todos poderia ser traduzida da seguinte forma: não vale a pena viver aqui por esse dinheiro. Vivem apenas porque vivem.

“Uma criança em particular me chamou a atenção naquele circo de horrores”, me disse Poletto. “Ela tinha o cabelo black power e carregava embaixo de um dos braços uma boneca sem pernas e braços. Na outra mão um livro. A cena me chamou tanto a atenção que a segui com meu olhar. Ela caminhou em direção a única sombra existente naquele lixão, encostou-se na árvore, colocou a boneca deitada em suas pernas e pegou o livro com as duas mãozinhas. Folheava sorvendo o conteúdo de cada página com tamanha curiosidade”, seguiu Poletto em seu relato complementando que a distância não conseguia identificar qual era o livro que despertava tamanha concentração daquela pequena criança naquele ambiente tão hostil. Para acabar com a curiosidade, aproximou-se. Ele o fez com a calma de um felino para não atrapalhar a concentração daquela jovem leitora. Quantas imagens teria em cada uma das páginas para lhe fazer parar por instantes mais em uma do que na outra. “Tu não vais acreditar. O livro não tinha figuras. Na verdade, não era bem um livro. Era a Constituição Federal da década de 1960. E a menina a folheava de cabeça pra baixo”, disse mostrando satisfação com a descoberta. Não importara para Poletto que a menina não soubesse ler. Apenas lhe agradava saber que tinha o desejo pela leitura.

Poletto sentou-se ao lado da menina, que o olhou, sorriu e seguiu em “sua leitura”. Ele não puxou conversa para não a tirar a atenção. Aproveitou o momento concentrado da pequena companheira de sombra para ter a conversa com Ele. A primeira pergunta que lhe veio à cabeça era “Por que aquela menina ali ao seu lado não estava na escola? Isso enquanto as crianças daquele bairro onde acompanhou o rapaz que procurava emprego na construção civil iam para as suas escolas, com seus uniformes bem-cortados, levadas por seus motoristas? O que aquela pequena teria feito nesta vida para merecer tamanha sorte? Por que aquele senhor, de idade já avançada, estava condenado a ter aquele fim de vida? Ao mesmo tempo que os homens, donos daquele lixão, se regozijavam com os lucros auferidos”, seguiu Poletto em seus questionamentos, olhando fixamente para o topo da montanha que, servindo-lhe de alça de mira, permitia enxergar, ao longe, uma cruz instalada no topo da torre de uma igreja em um bairro próximo. “Por que, meu Deus, estava decretada aquela gente ter aquela vida?”, seguia Poletto em seu diálogo quando tocou uma sirene e todos saíram correndo em direção ao portão, onde um operário o estava fechando. Poletto saiu em disparada acompanhando a menina sem ter tempo de ouvir, mais uma vez, as respostas às suas perguntas.

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