Fui ali falar com Deus IV

– Eu acho que não estou dando tempo suficiente. – assim, Poletto começou a conversa. Estávamos dentro do ônibus indo de Viamão à universidade. Eu havia dormido na casa dos capuchinhos na noite anterior, por conta de uma reunião em que discutimos a qualidade do transporte coletivo na região onde eles moravam. Na casa, viviam oito estudantes. Três deles estudavam Filosofia na PUC em Porto Alegre, e os demais Teologia no Seminário Maior ali mesmo em Viamão.

– Tempo para quê, Poletto? – perguntei-lhe enquanto observava as árvores do outro lado da estrada. Alguns eucaliptos sugando as águas do lençol freático, mas muitas árvores nativas que já faziam do Parque Saint-Hilaire um pulmão urbano cuidando do futuro daquela região da cidade.

– Tempo para ele me responder. Sempre o encho de perguntas e sequer fico esperando por suas respostas. – imaginei que Poletto falava de algum professor da sua faculdade. Volta e meia eu também me flagrava agindo desta forma. Certa vez, durante uma aula de Filosofia sobre o Ser e Tempo de Heidegger, passei a manhã toda perguntando ao professor Rabuske. Não me recordo se por concordar ou não com o que o filósofo alemão escreveu em sua obra. Apenas me recordo de que a cada frase do professor seguia uma pergunta minha. Assim mesmo, sem dar muito tempo para a resposta como Poletto falava naquele momento. No final da aula Rabuske me chamou na frente da sala e, com uma das mãos apoiadas na mesa em imbuia marrom escura das salas do prédio 5 e a outra em meu ombro, olhou-me nos olhos e deu-me a resposta definitiva: – Heidegger não é para ti. – nunca perguntei o que ele quis dizer com aquela frase, mas tenho para mim até hoje que ele, de forma educada, disse que eu nunca entenderia o alemão. No que tendo a concordar.

– Eu sei bem como é isso. Às vezes, a gente não dá muito tempo para os professores elaborarem e já queremos respostas pressionando-os com novas perguntas. – falei construindo cumplicidade.

– Não. Não é disso que estou falando. Estou falando Dele. – respondeu-me imediatamente Poletto elevando, educadamente, o tom da voz e demonstrando não entender o fato de eu não saber sobre quem ele estava falando.

– Dele? – perguntei-lhe ainda sem entender.

– Escuta aqui. Presta atenção. Deixa de olhar para a rua e presta atenção aqui. Eu não estou fazendo a minha caminhada buscando conversar com Deus? – aí me caiu a ficha. Agora, estava entendendo o que ele falava. Poletto seguiu listando as experiências que havia tido até então. As pessoas na parada de ônibus esperando por uma lata de sardinhas; o jovem em busca de um primeiro emprego; o morador de rua na praça; os moradores da Vila Cai-Cai; as crianças da Cai-Cai e do lixão; e uma que não havia me falado, era sobre uma zona de prostituição nas proximidades da Avenida Farrapos que ele havia visitado e conversado com homens e mulheres que vendiam seus corpos por alguns trocados. – Nessas caminhadas, sempre que me deparo com situações vividas pelos mais desfavorecidos, tento entender o porquê daquilo, por que aquelas pessoas vivem daquele jeito, enquanto outras – como nós mesmos – vivem realidades muito melhores. Então, como não tenho as respostas pergunto a Deus. Para que ele me diga as causas daquelas situações.

Ouvia, agora, com o máximo de atenção as palavras de Poletto. Sentia em sua voz um pingo de frustração. Imaginei que poderia passar por sua cabeça que tudo aquilo que ele estava fazendo não valeria a pena, que os seus objetivos não seriam alcançados. Procurei estimulá-lo sugerindo que se talvez fizesse apenas uma pergunta por vez, se isso não facilitaria o trabalho para Ele. Como não era – como não sou até hoje muito afeito às questões religiosas, imaginei que poderia ser uma saída, mas, logo após falar essas palavras, eu me senti um completo imbecil. Como assim facilitar para Ele. Eu me lembrei de uma história que ouvi em uma das poucas aulas a que assisti para fazer a primeira comunhão, na qual a professora falou de uma tal de onipresença, onisciência e onipotência Dele.

– Não, a questão não é a quantidade de perguntas. – respondeu-me Poletto com um sorriso no rosto, cumprimentando minha ingenuidade – e por que não dizer ignorância. Não há complexidade ou demanda que O assuste. O problema não é esse. O problema deve estar comigo. Tenho certeza. Devo estar fazendo algo errado. – disse Poletto, agora em um tom professoral. Eu ali, meio sem jeito, busquei consolá-lo. Utilizando argumentos desconexos, típicos de quem não entende muito do assunto, fiquei por um tempo tecendo raciocínios que buscassem racionalizar o conteúdo daquele debate. Impossível, óbvio.

– Já sei. – disse Poletto de supetão, ao mesmo tempo que o motorista freava bruscamente, jogando os passageiros que estavam em pé sobre os outros e fazendo aqueles que estavam sentados quase baterem com a boca na proteção de ferro dos bancos à frente. Depois de “ajustada a carga de passageiros”, Poletto retomou de onde havia parado. Para ele, o problema estava na sua falta de concentração no momento das perguntas. Ele, Poletto, não estaria se conectando plenamente com o Senhor – ou mais ou menos isso que ele teria dito pelo que me recordo.

– Então a solução é simples. Basta tu te concentrares e as respostas virão. – disse-lhe, tentando tranquilizá-lo.

– Isso mesmo. A questão é essa. Estou me envolvendo demais com o problema e deixando me cegar para a conversa com Ele. Dá próxima vez, vou me cuidar para não cometer esse erro.

Seguimos nossa viagem falando de outros assuntos. Até que chegamos a nossa parada na PUC. Descemos pela Avenida Bento Gonçalves. Saímos do corredor dos ônibus e atravessamos a pista correndo, pois já estávamos atrasados. Poletto, correndo daquele jeito meio sem jeito dele, trombou com uma senhora que também atravessava em disparada no sentido contrário. Pediu-lhe desculpas e a acompanhou retornando ao corredor.

Eu, do outro lado da rua, enquanto observava o carinho com o qual ele tratava aquela senhora, fiquei pensando em todas aquelas dúvidas que ele havia se colocado durante o trajeto de casa até ali. Do meu ponto de vista, ou seja, do ponto de vista de quem não vive esse mundo espiritualizado, fiquei imaginando o que leva, o que motiva, uma pessoa a ter aquelas convicções em relação a um Deus, a alguém que essa pessoa nunca viu, com quem nunca teve uma conversa nos moldes os quais nós conversamos com outras pessoas pelo menos, um Deus que ela nunca viu fazendo o que a sua crença diz que ele fez.

– Vamos lá. Estamos atrasados. – disse-me Poletto, puxando-me pelo braço em direção ao portão do Champagnat. Atravessamos todo o campus até o nosso prédio, com ele me explicando como faria das próximas vezes que saísse em sua caminhada. No curto espaço de tempo, desde que paramos de falar sobre isso até descermos do ônibus, ele traçou toda uma estratégia que, à primeira vista, parecia fazer sentido. Era esperar, portanto, pelas respostas.

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