O velho estancieiro

João Gango é um velho estancieiro da cidade gaúcha de São Borja. Havia passado por uns maus bocados nos anos finais da década de 1990. Viu o seu negócio e de seus companheiros patinarem. A participação da agropecuária da sua cidade no PIB do Estado e do Brasil só diminuía. Asconversas nas rodas de chimarrão eram só sobre como honrar – ou não –as parcelas devidas ao Banco do Brasil.

– Tchêtá “fea la cosa” – disse Gangopara Nego Chico, outro estancieiro que ia mal das pernas. – Tu sabes que fui ao banco e o gerente me disse que o meu crédito estava encerrado. Eu queria um novo financiamento para pagar o antigo,que eu certamente iria atrasar, e o índio parquem eu deveria pagar, me disse que não vai mais me emprestar. Aísim preteou os olhos da gateada.

– É verdadetchêTu sabes que já faz cinco anos que eu não consigo trocar minha camioneta? Os pilas andam contados lá por casa também. Se não eu até poderia ajudar o compadre – respondeu rapidamente Nego Chico explicitando sua realidade que em muito se assemelhava ao do amigo, ao mesmo tempo que escapava de um possível pedido de empréstimo.

A vida não andava muito serena mesmo para os estancieiros naquela segunda metade da década de 1990 e começo dos anos 2000. Claro que nada comparável com o resto da população, que vivia dos seus pobres salários. A crise, diziam alguns estancieiros, era provocada pela disputa desigual que o arroz argentino patrocinava contra o produto são-borjense e, também, por conta do baixo preço pago pelo leite produzido em boa parte das propriedades da região.

O ano era 2002. Os estancieiros se reuniam para falar do futuro em meio aos tantos fandangos que se espraiampelo imenso território da cidade durante a Semana Farroupilha. Estavam fartos da situação em que viviam e pensavam ter que unir suas forças para mudar o estado de coisas que insistia em rebaixar, dia após dia, o padrão devida que outrora estavam acostumados.Ou, pelo menos, não podiam deixar a coisa piorar. Município formadpor muitos estancieiros, alguns delesdescendentes de fazendeiros militares como sua origem revela, São Borja é uma cidade bastante politizada. Era preciso se organizar.

– A peleia é a seguinte xirus: Daqui a alguns dias o povo vai votar. E nós não podemos deixar comunista algum ganhar essa eleição. Esse Lula, e nem esse Ciro que tá naquele partidinho lá que era comunista e agora mudou de nome, não podem ganhar. Se tá ruim com o Fernando Henrique, vai ficar muito pior se os tucanos perderem. Como não temos alternativa melhor e está tudo muito em cima do laço, temos que jogar nossas patacas todas nesse Serra. É o único jeito de não deixar esses vermelhos mandarem no Brasil. – disse Gango em um comício improvisado, do alto da caçamba de sua Hilux. Falava para cerca de 100 dos maiores estancieiros da cidade. Foi seguido de palmas e gritos de “Fora comunistas, fora xiitas”.

Dali saíram se organizando para fazer campanha em defesa dJosé Serra, candidato do PSDB. Ou, como eles gostavam de dizer, fazer campanha contra Lula, candidato do Partido dos Trabalhadores e, para todos ali, um comunista que iria permitir que o Movimento dos Sem Terra invadisse suas propriedadesEsse movimento começariapelas famílias dos peões das suas estâncias. Pediriam o número do título de eleitor de cada membro das famílias dizendo que acompanhariam os relatórios de votação de cada urna, e se não tivesse o voto de todos da família no candidato de número 45 eles perderiam o trabalho. E assim saíram falando com cada um.

Foram dias de muita correria, pois faltava pouco tempo para o primeiro turno da eleição presidencial. A empreitada entrava noite adentro com as camionetes percorrendo todos rincões, na sede da cidade e dentro das fazendas, em cada galpão, em cada bolichoatrás de todos os peões. Na véspera da votação em primeiro turno,se reuniram na sede do Tropilha Crioula, um dos maiores e mais importantes Centros de Tradições Gaúchas do Estado. Avaliaram que havia sido bastante positiva a sua movimentação nos últimos dias.

– Vamos dar uma surra de relho nesses vermelhinhos – disse João Gango para uma plateia atenta em uma grande roda de chimarrão. 

– Chega me dar um nó nas tripas só de pensar em ver aquele barbudo sem dedo Presidente do Brasil – disse um dos presentes na mateada.

Ainda na noite de domingo, seis de outubro, sairia o resultado do primeiro turno das eleições. Em São Borja, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva havia recebido o voto de 18.310 são-borjenses e José Serra, 8.598A tristeza tomou conta do coração de Gango e de seus companheiros. Mas não se deixaram abater. Reuniram-se já na manhã de segunda-feira para organizar a ofensiva em direção ao segundo turno. Combinaram de jogar mais pesado dessa vez. Avaliaram que a conversa havia sido muito mole, que deveriam endurecer. Acertaram uma estratégia que julgaram infalível. Pegariam os peões durante a lida. Desceriam das suas camionetes para a conversa com as armas em punhoEra para intimidar mesmo.Acreditavam que, assim, o recado seria dado sem precisar sequer verbalizar. Os peões, apesar de mongolões na opinião dos estancieiros, haveriam de entender que a coisa ia ficar ruim para o lado deles se o candidato do PT ganhasse as eleições na cidade.

– Chico, olha só. Temos que vecerto onde tem propriedades descobertas nesse nosso trabalho de convencimentomandamos mais gente para lá para reforçar. Temos que falar com cada um desses filhos da puta dessa peãozadae dar o recado bem claro. Não pode ficar dúvida na cabeça deles – disseGango ao celular para o amigo Nego Chico.

E assim transcorreram os dias que separaram o primeiro do segundo turno daquelas eleições. Para Gango e seus amigos, as horas passavam muito rápido. Os dias nem pareciam ter mil quatrocentos e quarenta minutos.Praticamente todos os estancieiros se jogaram de corpo e alma na empreitada.Para eles, muita coisa estava em jogo.

No dia da eleição foram todos às ruas. Sem grandes preocupações em estar cometendo algum crime eleitoral,fizeram transporte de eleitores dos mais longínquos rincões. Ao longo dashoras em que as seções de votação estiveram abertas, o trânsito na cidade parecia de um dia normal em horário de picoO corpo a corpo foi intenso, eles não podiam perder um voto.

Combinaram de acompanhar a apuração na casa de Gango. Se reuniram na varanda da sede e, quem não coube por ali, se acomodou pelo pátio. O som da rádio Gaúcha saia dos autofalantes cansados de um rádio Semp, herança do pai de Gango, por onde ele acostumavaacompanhar os jogos do seu colorado. As pesquisas de boca de urna e osresultados parciais já indicavam a vitória do candidato petista. Aos poucos, os amigos foram procurando o rumo de casa. Quando anunciada a totalidade da apuração, restavam uns poucos gatos pingados naquela varanda. A tristeza estava estampada no rosto de todos.

– Mas tenho certeza, xiruzada, que cumprimos o nosso papel. Aqui em São Borja esses vermelhinhos não tiveram vez – disse Gango com voz empostada,apesar das lágrimas que resistiam emcair, corcoveando em seus olhos. – Chico, ligue lá no cartório e peça os números daqui pra nós.

O amigo Chico saiu da varanda e foi para o meio do pátio ligar para um de seus contatos no Cartório Eleitoral da cidade. Enquanto ouvia os números,anotava em um papelzinho apoiado sobre o capô de uma das camionetes. Voltou meio atucanado para junto dos demais. Até deu uma mosqueada e tropeçou na escada quase dando de cara no chão. Os olhos marejados fitaram Gango. Paralisado no meio do caminho, Chico não falou uma palavra. Demonstrando um pouco de receio, estendeu a mão e entregou para o Gango o papel com os resultados.

– Vai, xiru, o que diz aí– perguntou Gango estendendo a mão em direção ao papel. Pegou-o e pôs-se a ler. Ficou paralisado. Fixou nos números. Olhou para Chico, voltou a mirar para o papel. Os olhos se enchiam cada vez mais de lágrimas. Olhou para os demais e novamente voltou-se ao papel, num vai-e-vem de incredulidade.

– BãnAgora me caiu os butiás do bolso. Mas esse povo é muito taipa mesmo – disse João Gango, velhoestancieiro alto e gordo, sem disfarçar a voz embargada após ler que o candidato petista havia recebido mais de vinte e dois mil votos, o dobro dos recebidos pelo seu candidato.

Sem falar uma única palavra aos seus companheiros, levantou-se e despacitofoi dar uma banda pelo campo acompanhado apenas de uma garrafa de caña e do seu cusco ovelheiro – que, quis a ironia do destino, se chamava Estrela

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s