Fui ali falar com Deus V

O outono chegara com frio e chuva fina nesta parte da região sul do Brasil. Em um dos primeiros finais de semana da nova estação, Poletto optara por fazer sua caminhada em direção a um presídio. Encontraria com indivíduos normalmente invisíveis ou apenas visíveis em seus defeitos, buscando ver, em suas histórias, as verdades não contadas pelos números ou versões publicadas.

– Achei bastante estranho que nas imediações haviam muitas pessoas – de todas as idades, espalhadas pelas ruas das imediações do complexo prisional com suas barracas e guarda-chuvas a espera de algo que talvez nem elas mesmo sabiam. Eu me dirigi à recepção e, após o processo de identificação, fui levado ao pátio onde vários homens se encontravam. Uns caminhavam em círculo. Outros sentados protegidos por pequenas marquises junto às paredes. Chamou-me a atenção um jovem rapaz negro, de mais ou menos 20 anos, encostado em uma das traves de uma goleira enferrujada de uma quadra de futebol no centro do pátio. – me disse Poletto, durante um almoço, ao contar a história que segue.

Poletto se aproximou do jovem e, depois de se apresentar e falar o que fazia por lá, ouviu daquele rapaz a sua história. Fora preso com pouco menos de 10 gramas de maconha acusado de ter cometido roubo em uma mercearia do bairro onde morava. Já cumprira quase um ano de sua pena e aguardava julgamento de seu recurso para ser libertado.

– Mas você roubou mesmo a mercearia? E por quê? – perguntou Poletto ao jovem detento.

– Moço, eles me acusam de ter roubado. Até pode ser que seja um roubo. Acontece que fazia três dias que minha irmãzinha não tomava leite. Minha mãe estava desempregada e não conseguia nem uma faxina para fazer. As coisas estavam difíceis lá em casa. Eu mesmo trabalhava como ajudante em uma oficina mecânica. Lixava carros para a pintura, mas, como diminuiu o serviço, meu patrão me dispensou fazia uns seis meses. Meu pai eu não conheci. Ele sumiu assim que soube da gravidez da minha mãe. Eles dizem que eu roubei. Para mim, eu apenas comprei uma caixa de leite fiado.

 – Sim, mas e a maconha. Se você não tinha dinheiro para o leite para a sua irmã, como tinha dinheiro para comprar drogas? – interveio Poletto colocando uma cunha no discurso vitimizador do jovem.

– Não, moço. Eu não comprei aquele cigarro lá não. Um amigo lá da vila que me deu para eu experimentar. – falou firme o rapaz mostrando acreditar firmemente naquela verdade. Poletto percebeu que aquela história tinha uma lógica e que o rapaz, apesar de buscar justificativas para os seus atos, não negava o que lhe era imputado.

Encostado em um canto do pátio, isolado dos demais, estava outro jovem, também negro, que olhava para o céu como quem buscasse ver por além daqueles muros. Poletto se aproximou e, antes de dirigir qualquer palavra, ficou por um tempo sentado ao seu lado olhando na mesma direção. Ficaria um bom tempo ali refletindo em que pensava aquele jovem. Buscava naquela imagem com nuvens cinzas, sobre o céu cinzento, emoldurada, em sua base, por um muro cinza, algo que pudesse ajudar na compreensão do que viria a ouvir.

– Olá, tu já estas a muito tempo aqui dentro? – perguntou Poletto sem nem ao menos se apresentar. Suas roupas marrons, contudo, denunciavam ser um religioso.

– Sabe, moço, todos os dias eu me faço essa mesma pergunta. E a minha vontade, sempre, é de responder a mim mesmo que não interessa quanto tempo estou aqui. O importante, de verdade, é quanto tempo falta para eu sair desse inferno. – respondeu o jovem, mostrando que a sua matemática do tempo não somava, subtraía.

Poletto atravessou o pátio e foi sentar ao lado de um senhor que estava junto a uma mesa de concreto onde apoiava os braços pelos cotovelos a lhe sustentarem o queixo. Seu olhar não carregava nada de tristeza. A resiliência lhe emprestava brilho nos olhos, apesar da situação vivida. Esse senhor encontrava-se preso, segundo relatou ao Poletto, acusado de não ter pago o financiamento de um carro que disse nunca ter comprado.

– O senhor sabe a força que os bancos têm nesse país, né, moço? O monte de advogados que eles têm para correr atrás dos seus interesses. Acontece que eles dizem que não paguei as prestações de um negócio que não comprei, que nunca tirei da loja, que nunca virei a chave de ignição, ou seja, que nunca foi meu. É verdade que eu fui até a loja uma vez, entrei dentro de um carro, mas não comprei, porque eu precisava de algo maior, mais seguro para eu trabalhar e para andar com minha família, que não é pequena.

– Espera aí, deixa eu ver se entendi. O senhor foi condenado por não pagar uma coisa que o senhor não comprou? – perguntou Poletto mostrando não acreditar muito na história contada por aquele senhor com uma cabeleira rala e branca, uma barba também branca e um timbre de voz que indicava ter algum problema nas cordas vocais.

– É, eu sei o que você deve estar pensando. Que é uma história de louco, que inventa coisas para esconder os seus erros. Mas não, moço. Essa é a mais pura verdade.

 – Mas se o senhor nunca foi dono do carro, era fácil provar. Era apenas ir ao Detran e pegar um documento do carro para provar que não era seu.

– E o senhor acha que meu advogado não fez isso, moço? O carro nem documento tinha porque nunca tinha saído da loja.

 – Mas, então, estava provado que não era seu.

 – Eu também pensava assim, mas acontece que não foi isso que o juiz entendeu. Eles usaram um documento de solicitação de financiamento, esses que gente dos bancos que ficam nas concessionárias de carro oferecem para gente quando vai comprar apenas para fazer a análise de crédito, para dizer que eu tinha comprado.

 – Espera, aí. O senhor provou que nunca entrou dentro desse carro por um minuto sequer em uma rua da cidade, que nunca dirigiu esse carro, que nunca o tirou de dentro da concessionária e, mesmo assim, o senhor foi condenado? – disse Poletto ainda sem acreditar muito naquela história, mas percebendo a verdade nos olhos daquele senhor de pouco mais de setenta anos. – Mas como eles lhe condenaram então? Ou melhor, porque o senhor acha que lhe condenaram? – perguntou-lhe o incrédulo Poletto.

– Perseguição pura, moço. – respondeu de pronto aquele senhor que mostrava saber exatamente porque estava passando por aquela situação.

– Como, assim, perseguição?

 – Moço, é o seguinte: quem me acusa pensa diferente de mim sobre tudo. Sobre o mundo e sobre as coisas de Deus. Acontece que ele é de uma religião diferente da minha. E o pior é que ele é seguidor de um pastor que sempre falou barbaridades sobre mim lá no bairro. Mentiras mesmo sabe! Imagina que esse pastor, de tempos em tempos, ia para a igreja falar que eu defendia o aborto. Logo eu que sou católico, praticante e que o que mais gosto é da vida. Claro que eu acho que a mulher tem que poder decidir essas coisas, mas eu não saio na rua defendendo que todo mundo faça aborto como método contraceptivo. Essas e outras inverdades que ele falava nos cultos deles lá. Tem até gravado na internet alguns desses vídeos. Você pode pesquisar lá. E acho que esse moço que me acusou foi acumulando ódio contra mim e contra o que eu penso e defendo. Daí, criou essa oportunidade para se vingar de alguma coisa e impedir que eu seguisse lá na minha comunidade falando o que eu penso. E tem mais. Ele também se acha melhor do que eu só porque estudou em uma faculdade e eu não. Só que ele não sabe que a vida também ensina. E tem mais uma coisa também…

– Mais ainda? – cortou Poletto não acreditando no que estava ouvindo.

– É, aquele pastor lá, que o cara que me acusou segue, quer que uma escola lá no bairro seja destruída para ser construído no lugar um condomínio de luxo. E eu sou contra e tenho falado na comunidade que a educação das nossas crianças tem que ser prioridade.

Poletto, naquele dia, colocou em prática sua estratégia pensada após a última conversa com Ele. Saiu dali e foi direto a uma igreja em um bairro próximo. Como não havia missa naquele horário, estava vazia. Apenas duas ou três pessoas. Poletto rezou um terço. Na sequência, ficou absolutamente concentrado na conversa que teria. Começou pelo exemplo do jovem preso por furtar uma caixa de leite e portar um cigarro de maconha.

– Deus, hoje visitei um jovem negro, pobre e que está preso por ter furtado uma caixa de leite longa vida para sua irmã mais nova e por carregar uma pequena quantidade de drogas. Ele e sua mãe, os dois da família com idade para trabalhar, estão desempregados. Não têm pai. E assim que ouvi a sua história me lembrei de duas outras que assisti na televisão onde, em uma, um helicóptero de um senador, com o seu piloto particular pilotando, foi pego com quilos e quilos de drogas e nada aconteceu com esse senador. E, em outra, o filho de uma juíza foi pego com quilos e quilos de drogas também e foi solto logo depois de ser preso. Por que, meu Deus, tamanha diferença de tratamento? Qual pecado terá praticado esse jovem que tanto o senador como o filho da juíza não tenham cometido?

Dentro de sua estratégia, Poletto colocou-se em absoluto silêncio por vários outros minutos. Aguardava alguma resposta. Pôs-se, depois desse tempo, a rezar mais um terço. Mais meia hora em silêncio e, então, decidiu ir embora, pois já ficava tarde. Durante o seu percurso até o ônibus fez a segunda indagação do dia.

– Deus… para não tomar muito o Seu tempo com minhas dúvidas, tenho só mais uma pergunta hoje: como é possível condenar uma pessoa sem ter qualquer prova contra ela, pelo simples fato de não concordar com o que essa pessoa pensa? Por não se gostar do que ela defende ou representa. Nesse caso, poderia listar centenas de casos em que há provas e pessoas que não foram condenadas, sequer julgadas. Mas não vou ficar aqui Lhe falando porque isso o Senhor está cansado de saber, não é? Mas como é possível uma condenação sem provas? Sem a pessoa ter cometido qualquer crime. Olha, mas só não vale me responder usando o exemplo do Seu filho.

 

1 comentário Adicione o seu

  1. José Marques disse:

    Muito bom! Bem atual.

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