A pescaria

Os primeiros raios do dia surgem naquela manhã de início de outono. No horizonte, um temporal se forma. Daqueles envoltos em cascas escuras, de um cinza chumbo a expelir luzes e anunciar os estrondos. Tempestade a se aproximar do pescador que, a poucas milhas náuticas da costa, distribui os losangos de sua rede nas águas calmas da baía na tentativa de capturar as primeiras tainhas da temporada.

Pedro, pescador da região, em sua embarcação Itapema XIII – experiente que é – sabe que ainda é cedo para a empreitada. É abril. Mas, para ele, é tarde para esperar. É preciso remar. Não contra a corrente daquelas águas, como está acostumado a fazer nesses últimos 40 anos. Mas contra as contas. Porque é necessário compensar os ganhos que a temporada de turismo que se finda não lhe trouxe.

A pescaria fica de lado durante a temporada de verão. Pedro sustenta sua família como marinheiro de lanchas em passeios às ilhas da região. Pilotando, fazendo o churrasco, trabalhando pela segurança dos embarcados. Este ano o movimento, por conta da pandemia do coronavírus, foi muito pequeno. O que reduziu consideravelmente a renda da sua família. Sim, porque, além do Pedro, Dona Ivete, como é conhecida a sua esposa, faz um dinheirinho alugando cadeiras e guarda-sóis aos turistas em sua barraca na beira da praia. Tudo devidamente registrado junto à prefeitura da cidade, como ela faz questão de repetir.

Certa feita, Pedro pescava mar adentro quando foi atingido por uma tromba d’água. Estava bastante distante da linha imaginária que liga a Ponta das Bombas à Ponta da Vigia, em Penha. Sua embarcação era maior do que a de hoje. Própria para pescarias em águas mais profundas. A tormenta foi tão forte que problemas nos motores e no casco geraram apreensão na tripulação por horas e horas naquela noite. Os raios rasgavam o céu escuro iluminando as paredes formadas por enormes ondas. O barco, já carregado com o resultado da pescaria até então, virou passageiro dos desígnios de Fórcis e Euríbia. As perdas foram apenas materiais. Uma avaria no casco aqui, uma mexida na carga no porão ali. O motor, esse sim não teve jeito de religar. Ficaram por um dia inteiro à deriva até que outra embarcação os socorresse. E naquele mesmo dia, ao chegar em terra firme, disse para sua esposa e para si mesmo que, de agora em diante, pescaria sempre mais perto de casa. Porque o mar é vasto, mas também é impiedoso com os incautos.

A tempestade de hoje – e que se aproxima lentamente – antecipa a ação. Os companheiros já esperam por Pedro na areia. Em fila, com as mãos na corda, começam a puxar a rede que parece estar pesada. Movimentos sincronizados, uma divisão de trabalho artesanal que garante a segurança e a eficiência. Curiosos mascarados se protegendo do coronavírus observam o balé de mãos e braços. Esses, não as mesmas pessoas, mas os mesmos personagens, estão sempre presentes. Aliás, algum dia alguém vai explicar o porquê de tamanha curiosidade. Pois, invariavelmente, não compram um peixe sequer dos pescadores.

Pedro fundeia seu barco, com parte dele sobre areia, parte na água. Já em terra firme, junta-se aos demais. Passa por todos em direção à água. Cruza pelas cordas que se acumulam como uma obra de arte. Círculos sobre círculos a partir de um movimento belo e compassado dos dois pescadores ao final da fila. A rede já se insinua sobre as ondas. Pequenas e espumantes ondas.    

Pedro se posiciona por detrás da rede, bem ao centro, já dentro d’água, ali onde ela mais parece uma grávida de nove meses prestes a parir. Com firmeza e sensibilidade, ergue a borda da rede. Alguns peixes pulam na expectativa de conseguirem retornar para águas mais profundas. Parece que o sonho daqueles pescadores, de obter bons resultados na labuta, se concretizará.

Caixas são trazidas para perto do grupo. Cinco delas. Pescadores, são doze. A rede agora já está toda sobre a areia. Começam o trabalho, meticuloso como antes, de agora separar o capturado. Os pequenos são jogados de volta ao mar. O lixo – e não temos ideia de quanto lixo essas redes capturam, colocado ali próximo. Lixo de toda ordem. Garrafas pets, pedaços de cordas, óculos de sol, tampinhas – quantas tampinhas plásticas, e bitucas de cigarro. Uma quantidade enorme que, à distância, parece um sambaqui. E, enfim, os peixes em condições de comercialização são depositados nas caixas.

O trabalho segue até que todos os peixes tenham sido selecionados, os pequenos devolvidos, o lixo separado e a rede limpa e arrumada como quem dobra uma roupa de cama. Parte do grupo segue recolhendo a rede. De soslaio, todos em silêncio observam as caixas enquanto realizam suas tarefas. A quantidade de peixes não enche duas delas. Resultado diminuto, portanto, perto das expectativas que representavam as cinco caixas.

A rede volta para o barco. Pedro se curva e olha para as duas caixas com peixes. Volta o olhar para os seus companheiros, bate no ombro do que está ao seu lado a erguer uma das caixas e diz: “Vamos em frente, companheiro. A vida é feita de uma luta depois da outra”. Segue para o barco. Com altivez, embarcado, avista a parede de chuva que já faz chegar os primeiros respingos. Liga o motor e singra o mar em direção ao canto da praia, onde sua embarcação ficará fundeada até a partida na madrugada seguinte.

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