A desconexão

Por Domingos Neto

A noite foi muito mal dormida. E já não havia começado muito bem. O seu filho de 5 anos de idade tinha chegado da escola naquele final de tarde com dores de cabeça. Vomitou e, logo após tomar um banho, caiu no sono em sua cama, ele a segurar a sua mão. Mas tudo indicava ter sido um pequeno mal-estar. De hora em hora, o olhar fitava em direção ao filho instalado em um colchão junto à cama do casal e conferia o celular sobre a mesa de cabeceira. As horas passavam, passavam, mas as 4h da manhã, horário em que o moderno despertador deveria tocar, não chegava. Às 3h45 não deu mais para esperar. Marques saltou da cama e foi ao banho. Uma hora depois, o UBER já lhe esperava para seguirem rumo ao aeroporto de Navegantes. 

O frio de outono estava lá. Frio que deixaria para trás ao chegar ao seu destino. Belém do Pará, com seus prometidos 29 graus para aquele dia, apesar da chuva anunciada. Como de costume nesta época do ano, aliás. Com reunião marcada para o final da tarde daquele dia, chegaria no final da manhã com tempo suficiente para se preparar.

A entrada para a sala de embarque, irreconhecivelmente sem qualquer fila. Às 5h15 daquela madrugada já estava a postos para o embarque do voo que sairia em pouco menos de uma hora. Sairia. Porque, devido às condições climáticas, acabou não decolando no horário. Um leve nevoeiro estacionado sobre o aeroporto fez com que os embarques fossem atrasando, um a um. Notícia que chegou pelo sistema de som do aeroporto com a voz de funcionários da companhia aérea Azul.

Viajante experiente, Marques ficou atento ao sistema de som à espera de algum aviso sobre a sua conexão para Belém. Como o horário marcado pela companhia, entre a chegada prevista originariamente e a decolagem no outro trecho, era de uma hora de intervalo, tudo poderia mudar à medida que o tempo passava. Mas o aviso não veio. Embarque realizado, conexão garantida, imaginou.

Chegando em Campinas às 7h54 aguardou o desembarque sentado em sua poltrona, conforme os novos protocolos impostos pela pandemia. Uma funcionária da companhia entra na aeronave e dá o comando para os passageiros com conexão para Fortaleza e Cuiabá desembarcarem como prioridade. O que foi seguido por todos. Preocupado com o seu horário, mas acreditando que tudo estava sob o controle da companhia, Marques questionou a funcionária: “E a conexão para Belém, voo 4840?” Recebeu de resposta um quase seco “sobre esse voo não recebemos qualquer orientação”. 

A resposta não deixou o passageiro que estava naquele voo muito confortável pois ele tinha uma importante reunião marcada em seu destino. “Mas o embarque estava previsto para às 7h35 e a decolagem às 8h15”, disse, se levantando e pedindo desculpas, pois já eram 8h e não esperaria mais. Ao sair no finger encontrou a mesma funcionária e lhe perguntou onde estava sendo o embarque para Belém. Com um ar de dúvida e de surpresa, ela respondeu que sabia ter um voo para Belém no portão C02.

Saindo em disparada, coração acelerado com a mudança de nível do piso – o que sempre acontece com ele em qualquer subida, a qualquer velocidade, Marques se dirigiu ao portão informado. Qual não foi a surpresa? Neste portão estava o voo para Cuiabá. Ali a funcionária que fazia o atendimento informou que o portão correto era o B02.

Seguindo a faixa azul no piso, atravessou o aeroporto em direção à sua partida para Belém. Puxando a mala, mochila pendurada no ombro, driblando outros passageiros pelo corredor, às 8h12 chegou ao portão indicado. Nem uma viva alma da companhia aérea para lhe receber e dar a notícia sobre o seu voo. Pelo vidro era possível ver a aeronave taxiando em direção ao calor chuvoso, seu “objeto de desejo” naquele momento.

Rapidamente retornou em busca de funcionários da companhia para resolver o seu problema, problema, aliás, que não foi criado por ele, mas pela empresa. Depois de uma espera de mais de meia hora, o que lhe fez perder um voo de volta para Navegantes, chega a mesma funcionária que lhe havia dado a informação errada sobre o portão de embarque. Com aquele ar de quem está treinada e acostumada a essas situações, ela lhe dá a alternativa de voar às 21 horas. “Mas como, moça, minha reunião é às 17h30”, disse aquele incrédulo passageiro abandonado à própria sorte – e raiva. “Infelizmente nosso próximo voo para Belém é às 21h”, repetiu. “Ou, se o senhor preferir, posso ver um hotel e o senhor segue amanhã”, completou.

Como assim amanhã? O retorno está marcado para quinta-feira pela manhã. Atravessar o Brasil, pagando uma passagem cara, para ficar 12 horas em Belém, pensou. Após uma consulta às pessoas com as quais se reuniria em Belém, conseguiu remarcar a reunião para a manhã do dia seguinte. Decidiu embarcar no voo da noite, com chegada prevista para a madrugada. 

“O senhor tem direito a um café da manhã e um almoço. Para o jantar o senhor tem que passar aqui novamente pois trocará o turno”, assim se despediu a funcionária ao entregar o novo cartão de embarque, acreditando, a partir das regras de marketing da companhia, que havia adoçado a boca de um consumidor contrariado. “Ledo engano”, pensou em voz alta o passageiro “desconexado” – neologismo que, em muitas medidas, retrata sua condição e seu estado de espírito depois daquele périplo.

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